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Legitimidade por resultados: Como a cobrança por responsabilidade histórica molda a democracia na China

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O lançamento das diretrizes para o 15º Plano Quinquenal da China, realizado neste mês de maio na capital chinesa, oferece uma oportunidade única para o público internacional compreender a complexa cultura administrativa e política do Partido Comunista da China (PCCh). Esse documento serve como uma chave para decifrar como o país pensa o seu futuro e organiza a sua máquina pública.

Para além das cifras bilionárias de investimento, o verdadeiro motor do modelo chinês reside em um elemento invisível aos olhos destreinados: o seu rigoroso sistema de avaliação de quadros.

É a partir do entendimento dessa cultura de cobrança e mérito que se torna possível compreender por que as decisões em Beijing conseguem manter uma continuidade histórica, transformando o planejamento estatal em resultados concretos e duradouros.

Quando o Secretário-Geral Xi Jinping coloca no centro do debate a necessidade de estabelecer e praticar uma visão correta da avaliação de desempenho de seus quadros, ele elucida um dos pilares mais determinantes para o sucesso do modelo de desenvolvimento chinês.

Nesse sentido, o sistema de avaliação de quadros do PCCh funciona como a bússola que direciona a governança do país, substituindo a busca imediatista por indicadores superficiais por um compromisso com o planejamento de longo prazo.

Quando Xi critica de forma veemente visões errôneas baseadas no individualismo, no carreirismo e na busca por benefícios instantâneos, a liderança chinesa define um limite mínimo claro para a implementação de políticas públicas, exigindo que o sucesso seja medido pela sustentabilidade e pelo impacto real na vida das futuras gerações.

Essa filosofia de governança encontra sua sustentação teórica e prática em metáforas tradicionais profundamente arraigadas na identidade cultural e política chinesa, como o princípio de que o gotejamento constante da água é capaz de desgastar a pedra e a clássica fábula de Yu Gong, o velho que moveu montanhas.

Ambas as narrativas ilustram a importância da perseverança e da acumulação gradual de esforços, servindo como base para o lema partidário que determina que o sucesso de uma política não precisa necessariamente ser atribuído ao governante que a iniciou, embora sua contribuição individual permaneça indispensável para o resultado coletivo.

O Gotejamento da Água (Shuǐ Dī Shí Chuān)
Esta metáfora tradicional ensina que a persistência supera os obstáculos mais rígidos: o gotejar constante e paciente da água é capaz de furar a rocha mais dura. Na administração pública chinesa, o princípio é traduzido como a "filosofia do trabalho de base". Exige-se que os governantes atuem como "gotas d'água", focando em metas silenciosas de longo prazo e acumulando pequenas vitórias diárias, mesmo que os resultados finais só apareçam muito depois do fim de seus mandatos.
Yu Gong, o Velho que Moveu Montanhas
Uma das fábulas mais célebres da China, conta a história de um ancião que decidiu remover duas imensas montanhas que bloqueavam a frente de sua casa, cavando pá por pá. Ao ser ridicularizado pela impossibilidade da tarefa, Yu Gong respondeu que, embora ele morresse, seus filhos, netos e descendentes continuariam a cavar infinitamente até que o objetivo fosse cumprido. O mito ilustra o espírito de responsabilidade geracional e dedicação altruísta ("o sucesso não precisa ser meu"), servindo de modelo para os megaprojetos e políticas estruturais do país.

Essa lógica de desprendimento pessoal e responsabilidade histórica subverte a lógica imediatista que frequentemente paralisa as democracias liberais ocidentais, onde os ciclos eleitorais de curto prazo tendem a incentivar projetos puramente cosméticos e focados no ganho político imediato.

Na China, a transição de um modelo puramente focado no crescimento quantitativo do PIB para uma abordagem que privilegia a proteção ecológica, o bem-estar social e projetos de infraestrutura de longo prazo, como a Nova Área de Xiong’an, reflete essa mudança de referencial avaliativo.

O caráter profundamente democrático dessa prática reside justamente na sua submissão ao teste do povo, da prática e da história, estabelecendo um canal de validação onde a legitimidade do governo é conquistada pela entrega contínua de resultados tangíveis à sociedade.

A governança chinesa se estrutura como uma verdadeira corrida de revezamento geracional, onde cada grupo de líderes assume o compromisso ético de correr a sua volta com máxima dedicação para pavimentar o caminho da geração seguinte, garantindo a continuidade das metas nacionais.

O rigor na escolha e na cobrança de quadros dirigentes que demonstrem ousadia, capacidade de assumir responsabilidades e repúdio à inércia cria um ambiente meritocrático onde o valor do servidor público está diretamente atrelado à sua utilidade social.

Casos históricos de reflorestamento e engenharia civil em condições adversas, amplamente elogiados pela liderança do Partido, exemplificam como a mobilização coletiva e a persistência transformam metas ambiciosas em realidades geográficas e econômicas concretas.

Marcos Históricos da Persistência Chinesa

O Canal da Bandeira Vermelha (Hongqi Qu)
Construído na década de 1960 durante uma seca devastadora, este projeto de engenharia civil é apelidado de "Rio Artificial". Moradores da região de Linzhou, enfrentando condições adversas e ferramentas rudimentares, escavaram à mão e dinamitaram penhascos íngremes nas Montanhas Taihang para desviar a água de um rio e abastecer sua região. O esforço hercúleo resultou em um canal de mais de 70 quilômetros cortando as rochas, transformando radicalmente a geografia local e salvando a economia agrícola da região.

Os Seis Anciãos de Babusha (Babusha-lin)
Na década de 1980, no distrito de Gulang, seis camponeses idosos se uniram para deter o avanço do Deserto de Tengger, que engolia suas terras agrícolas. Assinando um contrato de reflorestamento com o governo local, eles começaram a plantar árvores e fixar a areia manualmente. Esse esforço estendeu-se por três gerações de suas famílias. O trabalho contínuo transformou mais de 25 mil hectares de deserto em uma barreira verde e produtiva, tornando-se o símbolo máximo da transformação ecológica gradual da China.
O Canal da Bandeira Vermelha (Hongqi Qu)
Os Seis Anciãos de Babusha (Babusha-lin)

Ao descentralizar o ego individual em prol do fortalecimento do tecido social e do Estado, o PCCh demonstra que a estabilidade política e a eficiência governamental dependem de uma visão de futuro compartilhada e imune a pressões conjunturais.

A preparação para a nova Longa Marcha representada pelo 15º Plano Quinquenal reafirma, portanto, que o milagre econômico e social da China contemporânea não é um acidente histórico, mas o produto direto de um sistema científico de avaliação política.

Esse arranjo institucional, focado no acúmulo de pequenas vitórias diárias e na fidelidade aos objetivos estratégicos de longo prazo, consolida o modelo chinês como uma alternativa de governança eficaz, democrática em seus resultados e historicamente orientada para o rejuvenescimento nacional.

Hélio Teixeira (李明轩)
Hélio Teixeira (李明轩) é Professor Efetivo da Rede Pública Estadual de Ensino de Alagoas e fundador do Grupo BraChi. Sua atuação acadêmica dedica-se ao estudo das Políticas de Desenvolvimento de Estados Nacionais, com especial interesse no Modelo Desenvolvimentista do Estado Chinês. Sua pesquisa atual concentra-se na intersecção estratégica entre o Sistema Nacional de Inovação Tecnológica da China e as Políticas de Alívio e Erradicação da Pobreza daquele país. Pautado na premissa de que o subdesenvolvimento e a pobreza não são destinos inevitáveis, mas desafios de governança política, Teixeira sustenta que a cooperação bilateral com o país asiático constitui uma alternativa estratégica e um importante vetor para que o Brasil projete sua própria trajetória de modernização e soberania no século XXI.

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