Início A História da Reconstrução da China A Grande Revolução (Série A História da Reconstrução da China)

A Grande Revolução (Série A História da Reconstrução da China)

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O processo de reconstrução e revitalização da nação chinesa ao longo do século vinte é marcado por rupturas, sacrifícios e a constante busca pela superação das estruturas feudais e da dominação estrangeira. O período compreendido entre os anos de 1924 e 1927 destaca-se como um dos capítulos mais importantes, imortalizado nos anais da historiografia como a Grande Revolução, ou simplesmente Revolução Nacional. Esse movimento de massas, que inflamou o país de norte a sul, foi impulsionado pela formulação da Primeira Cooperação entre o Kuomintang e o Partido Comunista Chinês (saiba mais aqui), uma aliança estratégica que uniu forças nacionalistas e socialistas em prol de um objetivo comum: a erradicação dos Senhores da Guerra feudais e a expulsão definitiva das potências imperialistas que fragmentavam a soberania territorial da China. A união dessas duas correntes políticas injetou um impulso sem precedentes no sentimento revolucionário da população, canalizando a insatisfação popular em uma estrutura organizada de resistência e ação combativa.

Para sustentar e operacionalizar essa gigantesca mobilização, a cooperação necessitava de bases institucionais sólidas e capacitação técnica e ideológica de seus quadros. Com o apoio estratégico e material da União Soviética, foi estabelecida na cidade portuária de Guangzhou a célebre Academia Militar de Whampoa, uma instituição destinada a formar a liderança do novo exército revolucionário que desafiaria as forças reacionárias vigentes. Paralelamente ao fortalecimento da vertente militar, compreendeu-se que a revolução não triunfaria sem a participação ativa das massas rurais, que compunham a esmagadora maioria da população chinesa. Sob a liderança inspiradora de intelectuais e militantes comunistas, entre os quais se destacavam Mao Zedong e Peng Pai, fundou-se o Instituto de Treinamento do Movimento Camponês, órgão que desempenhou um papel crucial na formação de líderes populares rústicos, dotando-os de consciência política e táticas de organização que transformariam os campos chineses em verdadeiros caldeirões de resistência antifeudal.

Da esquerda para a direita, Sun Yat-sen, Chiang Kai-shek, Mao Tse-tung e Zhou Enlai. Foto: reprodução

A fervura revolucionária atingiu seu ponto de ebulição nos meses de maio e junho de 1925, quando o emblemático Movimento 30 de Maio, integralmente liderado pelo Partido Comunista Chinês, desencadeou uma onda avassaladora de protestos, greves e incidentes patrióticos por todo o território nacional. O sacrifício dos trabalhadores nas ruas de Xangai ecoou como um chamado às armas, acelerando a consolidação das estruturas de poder em Guangzhou, onde, em julho daquele mesmo ano, foi formalmente instituído um governo nacional e constituído o Exército Nacional Revolucionário. Demonstrando grande capacidade de coordenação, as forças aliadas do Kuomintang e do Partido Comunista iniciaram campanhas fulminantes contra as facções de Senhores da Guerra estabelecidas nas regiões leste e sul do país. Através de operações bem-sucedidas, eles conseguiram eliminar de vez a influência desses tiranos locais na província de Guangzhou, ao mesmo tempo em que reprimiram tentativas de insurreição contrarrevolucionária, blindando e consolidando aquela região como a fortaleza inabalável da marcha que estava por vir.

Peng Pai – Com base na ideia e sugestão de Peng Pai, o Comitê Central do KMT decidiu criar o Instituto de Treinamento do Movimento Camponês de Cantão (ITMC) para treinar jovens idealistas que então saíram para educar as massas na China rural. Peng Pai foi o diretor do 1.º e 5.º mandatos do ITMC, enquanto Mao Tsé-Tung foi o diretor do 6.º mandato.

Com a retaguarda devidamente pacificada e fortalecida, o Exército Nacional Revolucionário deu início, em julho de 1926, à histórica Expedição do Norte, uma arrojada campanha militar que visava unificar o país e destituir o governo reacionário de Pequim. Em um intervalo surpreendente de apenas seis meses, as forças revolucionárias infligiram duras derrotas a dois dos três mais temidos e notórios Senhores da Guerra setentrionais, Wu Peifu e Sun Chuanfang, demonstrando uma superioridade tática e um moral combativo que desestruturaram as defesas inimigas. O avanço impetuoso dessas tropas fez com que a influência e os ideais da revolução se espalhassem como uma torrente pelas bacias estratégicas dos rios Yangtzé e Amarelo, alterando permanentemente a geopolítica interna da China. Sob a liderança direta e clandestina do Partido Comunista, a classe operária da metrópole de Shanghai organizou três sucessivos levantes armados contra os opressores locais, culminando em uma vitória espetacular que entregou o controle da cidade aos revolucionários. Simultaneamente, os movimentos camponeses e sindicais ganhavam uma escala massiva em províncias centrais como Hunan, Hubei e Jiangxi, provando que a revolução havia se tornado um fenômeno verdadeiramente popular e incontrolável pelas elites agrárias.

No entanto, a rapidez impressionante das vitórias alcançadas pela Expedição do Norte e a progressiva radicalização das massas operárias e camponesas começaram a gerar um pânico profundo e generalizado entre as potências imperialistas ocidentais e as alas mais conservadoras e reacionárias do próprio Kuomintang. Essa ala direitista, encabeçada pelo general Chiang Kai-shek, passou a enxergar o crescimento da influência comunista como uma ameaça existencial aos seus próprios planos de hegemonia política e de manutenção de certas hierarquias socioeconômicas. Rompendo unilateralmente os compromissos assumidos na aliança, Chiang Kai-shek arquitetou e executou um violento golpe contrarrevolucionário em Shanghai, no dia doze de abril de 1927, resultando no massacre de milhares de militantes e trabalhadores. Essa onda de traição estendeu-se até o mês de julho, quando o governo chefiado por Wang Jingwei em Wuhan perpetrou outro expurgo sangrento de comunistas e indivíduos progressistas. Esses trágicos acontecimentos selaram de forma definitiva o colapso da Primeira Cooperação e determinaram a derrota imediata dos objetivos originais da Grande Revolução.

Apesar do desfecho trágico e do aparente fracasso militar do movimento em termos imediatos, as repercussões históricas da Grande Revolução foram tão profundas que redefiniram por completo o curso da história moderna da China. O levante nacional desferiu um golpe devastador e irreversível nas pretensões das potências imperialistas e desmantelou quase por completo a base de sustentação do domínio reacionário dos Senhores da Guerra do norte, que nunca mais recuperaram o controle absoluto sobre o país. Nas províncias do sul, em especial, as sementes da emancipação social e política germinaram na consciência das populações locais. Para o Partido Comunista Chinês, o teste de fogo proporcionado pelas tribulações e provações desse período resultou em um amadurecimento político extraordinário, elevando consideravelmente sua reputação de vanguarda e expandindo sua influência de maneira sólida entre as massas exploradas. Foi durante essa fase turbulenta de crescimento e resistência que o Partido não apenas ampliou seu contingente de apoio, mas também começou a organizar e estruturar os primeiros núcleos de seu próprio exército popular. Esse legado organizativo e ideológico forçado no sangue e na luta estabeleceu os alicerces fundamentais sobre os quais se ergueriam as futuras e vitoriosas batalhas revolucionárias, consolidando o caminho definitivo para a libertação e a revitalização da nação chinesa.

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