
A história da reconstrução e revitalização da China alcança um ponto de inflexão dramática e transcendental nos acontecimentos que culminaram no dia 1 de outubro de 1949, uma data que redefiniu completamente o destino de uma civilização milenar. Para compreender a magnitude da cerimônia de fundação da República Popular da China e o seu papel central na narrativa de reconstrução e revitalização nacional, é imperativo retroceder ao século de humilhações que a antecedeu.
O declínio que preparou o terreno para essa transformação radical começou de forma avassaladora em 1840, quando a eclosão da Primeira Guerra do Ópio (leia aqui o texto da nossa série sobre a Primeira Guerra do Ópio) abriu as portas para que as potências ocidentais invadissem o território chinês de maneira impiedosa. Diante da agressão estrangeira, o governo feudal dinástico, corroído pela corrupção crônica e pela ineficiência administrativa, mostrou-se inteiramente incapaz de articular uma resistência militar ou diplomática à altura do desafio. Como consequência direta dessa fraqueza institucional, a China foi violentamente fragmentada e reduzida a um humilhante estado semicolonial e semifeudal, perdendo sua soberania de forma progressiva.
O povo chinês, outrora orgulhoso de sua herança cultural e de sua estabilidade histórica, foi empurrado para um abismo de miséria generalizada e sofrimento imensurável, agravado por guerras frequentes, fomes devastadoras e pela exploração desenfreada tanto por parte de forças externas quanto de elites locais insensíveis. Esse cenário de opressão e caos social gerou, ao longo das décadas seguintes, uma série de movimentos de resistência e revoltas populares que, embora fragmentados no início, demonstravam o desejo inextinguível da população de lutar contra as leis feudais sufocantes e contra a espoliação imperialista que ameaçava extinguir a própria identidade da nação.
Foi justamente em meio a esse ambiente de extrema volatilidade social e de profunda necessidade de rumos políticos que, no ano de 1921, nasceu o Partido Comunista da China. O surgimento dessa nova força política representou um marco organizacional decisivo, pois conseguiu realizar a fusão teórica e prática do marxismo-leninismo com o crescente e dinâmico movimento dos trabalhadores chineses, fornecendo uma base ideológica sólida e uma estrutura de vanguarda para as massas descontentes.
No desenrolar dessa e complexa luta social, os comunistas chineses encontraram na liderança intelectual e estratégica de Mao Zedong o caminho para a superação dos dogmas e para a adaptação da teoria revolucionária à realidade concreta do país. Mao Zedong e seus companheiros de partido souberam aplicar com maestria os princípios universais do marxismo-leninismo nas atividades revolucionárias cotidianas, compreendendo que a vasta população camponesa da China era a verdadeira força motriz para a transformação. A partir dessa leitura inovadora, eles conduziram o povo chinês por um caminho original e vitorioso para a revolução, caracterizado pela estratégia de cercar gradualmente as cidades a partir do campo e de tomar o poder político central por meio da força armada organizada.
Seguiram-se 28 anos de uma luta árdua, marcada por sacrifícios humanos incalculáveis, privações materiais severas e batalhas frentes a inimigos poderosos e impiedosos. Durante esse longo período de provação bélica e ideológica, as forças populares lideradas pelo partido conseguiram a façanha histórica de derrotar os agressores imperialistas japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que desestruturavam internamente as bases do governo reacionário do Kuomintang. Ao derrubar simultaneamente as estruturas do imperialismo estrangeiro, os resquícios do feudalismo agrário e o domínio opressor do capitalismo burocrático, a mobilização popular completou com sucesso a chamada Nova Revolução Democrática, criando las condições políticas indispensáveis para a posterior fundação da República Popular da China.
À medida que o conflito armado se encerrava com a vitória revolucionária, iniciou-se um intenso e meticuloso trabalho preparatório para dar forma jurídica e institucional ao novo Estado que emergia das cinzas da guerra civil. Essa tarefa de engenharia política foi assumida de maneira coletiva e representativa pela Conferência Consultiva Popular da Política do Povo Chinês, que reuniu diversas forças sociais e intelectuais do país. A Primeira Sessão Plenária desse órgão consultivo histórico foi realizada na cidade de Beijing entre os dias 21 e 30 de setembro de 1949, funcionando como um verdadeiro poder constituinte originário.
Foi durante essas sessões deliberativas que se adotou formalmente o Programa Comum da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, um documento de importância jurídica transcendental que estipulou as bases do sistema estatal, as estruturas do sistema político e as diretrizes básicas das políticas públicas e externas da nova república. Devido à urgência em institucionalizar o país, este documento fundamental serviu eficazmente como uma constituição provisória por um significativo período de tempo, garantindo a ordem e a legalidade no início do novo regime.
Além de definir as diretrizes programáticas do Estado, a sessão plenária tomou decisões simbólicas e práticas que moldariam a identidade nacional chinesa até os dias atuais, como a escolha de Beijing para ser a capital definitiva da República Popular e a adoção do calendário da era comum para sintonizar o país com o tempo internacional. No mesmo ímpeto de unificação simbólica, declarou-se a canção patriótica Marcha dos Voluntários como o hino nacional oficial e designou-se a icônica Bandeira Vermelha com Cinco Estrelas para representar a soberania do país perante o mundo.
Para governar a nação nesse período de transição crítica, a conferência elegeu o Conselho de Governo Popular Central, colocando Mao Zedong na posição de presidente da nova estrutura estatal. Como vice-presidentes do conselho, foram escolhidas figuras proeminentes da história política chinesa, incluindo Zhu De, Li Shaoqi, Soong Ching Ling, Li Jishen, Zhang Lan e Gao Gang, além de nomear Zhou Enlai e outros 55 membros de notório saber e liderança para compor o corpo deliberativo do Conselho. Esse recém-formado Conselho de Governo Popular Central realizou sua histórica primeira sessão oficial na manhã do dia 1 de outubro de 1949, tomando a decisão formal e unânime de proclamar perante a comunidade internacional a criação do Governo Popular Central da República Popular da China.
Poucas horas após essa deliberação interna, precisamente às quinze horas daquele mesmo dia primeiro de outubro, a história se materializou de forma pública e monumental na Praça da Paz Celestial, em Beijing. Mais de 300 mil pessoas, vindas de diferentes extratos sociais e unidas por um sentimento indescritível de esperança e renovação, reuniram-se no imenso espaço público para testemunhar a grande cerimônia de inauguração da nova pátria. Naquele momento solene e de imensa carga emocional, o presidente Mao Zedong subiu à tribuna e proclamou formalmente, com voz firme e perante a multidão atenta, o estabelecimento da República Popular da China.


Mientras a banda militar executava com vigor os acordes vibrantes da Marcha dos Voluntários, o próprio Mao Zedong hasteou lentamente a primeira Bandeira Vermelha com Cinco Estrelas, que tremulou imponente no céu de Beijing, simbolizando a união das classes sociais sob a liderança do partido. O ato público foi seguido por uma grandiosa parada militar e por uma colorida procissão civil que demonstravam a força, a organização e o entusiasmo contagiante do povo com o novo rumo político que se iniciava. Em virtude da magnitude e do significado profundo desses acontecimentos, o dia 1 de outubro foi oficialmente instituído como o Dia Nacional da República Popular da China, uma data celebrada anualmente como o marco zero da modernidade do país.
A fundação da República Popular da China provocou uma ruptura radical e definitiva com o passado imediato, deixando para trás, de forma irreversível, a humilhante sociedade semicolonial e semifeudal e o crônico estado de desunião e fragmentação política que caracterizavam a velha China. O novo governo popular revogou de imediato todos os tratados desiguais que haviam sido injustamente impostos ao país pelas potências imperialistas ocidentais ao longo de um século de agressões, acabando de forma sumária com todos os privilégios diplomáticos, comerciais e territoriais que o imperialismo estrangeiro usufruía em solo chinês.
Essa mudança estrutural representou um salto gigantesco e inédito na trajetória da civilização chinesa, permitindo a transição histórica de uma autocracia feudal centralizadora e opressora para um sistema democrático do povo, fundamentado na participação e na soberania popular. A partir desse ponto de inflexão na linha do tempo, a China rompeu as correntes da dominação estrangeira e entrou com vigor em uma nova era de sua rica história, uma era definida pelo princípio fundamental de que o povo é o verdadeiro dono do país e o condutor de seu próprio destino político e econômico. O nascimento da República Popular da China estabeleceu, portanto, as premissas políticas, sociais e institucionais indispensáveis para que a nação ingressasse em um período duradouro de estabilidade, desenvolvimento soberano e progresso material, servindo como a rocha fundamental sobre a qual se edifica, contemporaneamente, todo o grandioso projeto de reconstrução e revitalização nacional.
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