
O Espírito de Xibaipo (西柏坡精神 – Xībáipō jīngshén) é um dos marcos espirituais mais importantes em todo o processo histórico de reconstrução e revitalização da nação chinesa. Cunhado na pequena vila montanhosa do condado de Pingshan, província de Hebei, que serviu como o último posto de comando rural do Comitê Central do Partido Comunista da China antes da tomada do poder nacional. Foi ali, entre maio de 1948 e março de 1949, que se articularam as campanhas militares decisivas de Liaoshen, Huaihai e Pingjin, formulou-se a reforma agrária radical por meio do Esboço da Lei de Terras e projetaram-se as estruturas institucionais da Nova China. Contudo, mais do que uma centralidade operacional de onde partiram centenas de telegramas estratégicos, Xibaipo consolidou-se como um marco ético e conceitual. Foi nesse cenário de transição iminente do meio rural para o urbano, da guerra revolucionária para a governança estatal, que Mao Tsé-Tung formulou na Segunda Sessão Plenária do Sétimo Comitê Central a célebre advertência dos “dois deveres”: a exigência de que os quadros mantivessem a modéstia e a prudência e preservassem o estilo de trabalho árduo e vida simples. Ao qualificar a entrada na capital como uma “jornada para o exame final”, a liderança comunista estabeleceu que a vitória militar não representava o encerramento da revolução, mas apenas o primeiro passo de uma longa marcha, cuja aprovação dependeria continuadamente do julgamento do povo e da capacidade de esquivar-se do ciclo histórico de ascensão e decadência que marcou as antigas dinastias.
A reafirmação contemporânea dessa herança ganha contornos decisivos sob a orientação do Secretário-Geral Xi Jinping, que ao inspecionar a província de Hebei em julho de 2013, expandiu analiticamente o escopo do pensamento tradicional para integrar quatro pilares fundamentais: a modéstia e a prudência, o trabalho árduo, a busca da verdade nos fatos e o serviço irrestrito ao povo. Essa releitura visa assegurar que, diante do desenvolvimento econômico acelerado e da complexidade geopolítica global, o Partido não altere sua natureza nem o país perca sua cor ideológica. A longevidade do regime e a concretização do grande rejuvenescimento nacional são apresentadas como tarefas umbilicalmente ligadas à capacidade do Partido de exercer a autorrevolução e a governança rigorosa sobre si mesmo. A metáfora do exame contínuo reaparece na era contemporânea como um imperativo de integridade, no qual a modernização não se reduz ao acúmulo de riqueza material, mas exige a preservação do vigor moral e a eliminação intransigente da corrupção, do formalismo e do afastamento das massas.

A trajetória histórica de Hebei reflete o desdobramento concreto dessa doutrina ao longo das décadas. Como um escudo de proteção política e ecológica para a capital, a província converteu seus vastos recursos históricos vermelhos em ferramentas pedagógicas e motores de desenvolvimento regional. A transição da liderança revolucionária de Xibaipo para Pequim abriu caminho para a construção do novo estado, mas a manutenção desse legado exigiu a superação de desafios socioeconômicos persistentes na própria região de origem. Nas últimas décadas, o esforço de erradicação da pobreza nas Montanhas Taihang demonstrou a aplicação do princípio de servir ao povo de todo o coração. A transformação de comunidades vulneráveis no condado de Pingshan e na vila de Beizhuang, que superaram restrições geográficas por meio do desenvolvimento do turismo vermelho, da agricultura especializada e da energia fotovoltaica, exemplifica a articulação entre o compromisso social e a modernização econômica. A erradicação da pobreza extrema na região é compreendida não como um ato assistencialista, mas como o cumprimento de uma promessa histórica formulada ainda nos anos de guerra, quando o campesinato forneceu o apoio material e humano decisivo para a vitória revolucionária.
Paralelamente à dimensão socioeconômica, o Espírito de Xibaipo fundamenta as estruturas de coesão política e governança democrática da China contemporânea. A busca por máxima unidade, antecipada na Conferência Consultiva Política de 1948 e no engajamento dos partidos democráticos para a formação do governo de coalizão, consolidou as bases do sistema de cooperação multipartidária e consulta política. Na perspectiva da revitalização nacional, a eficácia do modelo estatal depende da capacidade de integrar forças sociais diversificadas, incluindo intelectuais, o setor privado e novas camadas sociais, sob um projeto comum. A consolidação da chamada democracia popular ao longo de todo o processo apoia-se nessa tradição de consulta contínua, buscando canalizar a força coletiva para a resolução de contradições complexas. A unidade, celebrada como um fator de resistência comparável ao ferro e ao aço, surge como a condição indispensável para enfrentar os riscos estratégicos, as fricções externas e as instabilidades do cenário internacional moderno.

Ao situar-se na convergência dos objetivos centenários, a liderança chinesa postula que os testes impostos pelo tempo tornaram-se mais sofisticados e exigentes. A governança do país exige a capacidade constante de transpor perigos, evitar erros subversivos e manter a disciplina interna através da institucionalização de regras severas, assim como se fez na histórica reunião de Xibaipo ao fixar regulamentos de conduta e sistemas de relatórios rigorosos. A perpetuação do país vermelho e a garantia de sua estabilidade de longo prazo dependem, portanto, dessa combinação entre a fidelidade às origens revolucionárias e a adaptabilidade pragmática às exigências da nova era. À medida que avança na construção de um estado socialista moderno, a nação chinesa reafirma o Espírito de Xibaipo não como uma memória estática do passado, mas como uma bússola ideológica viva, destinada a guiar os quadros do Partido e a sociedade na contínua prestação de contas perante a história e o povo.

Referências Biliográficas:
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