
Esta fotografia captura o zênite da trajetória revolucionária do Partido Comunista Chinês e um dos momentos definidores da geopolítica global no século XX. No dia 1º de outubro de 1949, do topo do Portão da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim, Mao Zedong proferiu as palavras que ecoariam por gerações: “O povo chinês se levantou”. Para o nosso grupo de pesquisa, este registro vai além da iconografia oficial; ele é o documento visual da transição de um movimento de guerrilha para um aparelho de Estado institucionalizado.
O Fim do “Século de Humilhações”
A fundação da República Popular da China (RPC) ocorreu em um cenário de exaustão e esperança. Após décadas de fragmentação por senhores da guerra, a brutal ocupação japonesa (1937 – 1945) e uma guerra civil sangrenta contra os nacionalistas do Kuomintang, o PCC emergiu vitorioso. A cerimônia não foi apenas uma proclamação política, mas um rito de soberania que encerrou o que os chineses chamam de Século de Humilhações — o período iniciado com as Guerras do Ópio, marcado por interferências estrangeiras e tratados desiguais.
Personagens e a Composição do Poder
A imagem revela uma diversidade de figuras que compunham a Frente Única naquele momento:
-
Mao Zedong: No centro, lendo a proclamação oficial. Sua figura aqui consolida a transição do líder militar de Yan’an para o Chefe de Estado. O uso de microfones amplifica não apenas sua voz, mas a autoridade do novo regime sobre a vasta geografia chinesa.
-
Líderes de Partidos Minoritários e Intelectuais: Notem as figuras ao fundo e à direita, algumas com trajes tradicionais ou barbas longas (como o mestre Zhang Lan, à direita de Mao na foto original completa, embora parcialmente visível aqui). Eles representavam a Liga Democrática da China e outros grupos não comunistas que partciparam do processo.
-
Zhou Enlai e Zhu De: Embora nem todos apareçam no corte exato desta foto, a cúpula militar e diplomática estava presente, simbolizando a união entre o poder político, o fuzil (Exército de Libertação Popular) e a diplomacia.
Significado Político e Legado
Para pesquisadores da China, a análise desta foto exige olhar para o que ela representa simbolicamente: A Reificação do Estado. Pequim voltava a ser a capital, substituindo Nanjing, e o local escolhido — a entrada da antiga Cidade Proibida — enviava uma mensagem clara de que o novo governo herdava a centralidade do império, mas com uma base de massa proletária e camponesa.
O contexto internacional era de Guerra Fria incipiente. Internamente, o desafio era hercúleo: governar uma nação de 500 milhões de pessoas com uma economia destroçada e um sistema social ainda feudal em muitas regiões.
Esta imagem é o ponto zero da China contemporânea. Tudo o que estudamos hoje — desde as reformas econômicas até a política externa atual — tem suas raízes na legitimidade construída naquele balcão em 1949.



