
A história da China contemporânea encontrou um de seus pontos de virada mais significativos no dia 4 de maio de 1919, quando eclodiu um movimento de proporções históricas liderado fundamentalmente por jovens intelectuais e amplamente apoiado pelas massas populares do país. Esse levante de massas ocorreu em um ambiente de completo patriotismo com caráter marcadamente anti-imperialista e antifeudal, mobilizando a nação. Para compreender a raiz desse descontentamento, é preciso olhar para o cenário político instável que se seguiu após o fracasso prático da célebre Revolução de Mil novecentos e onze, que havia derrubado o sistema imperial. Nos anos subsequentes, figuras proeminentes como Yuan Shikai e Zhang Xun tentaram de todas as formas reverter a maré inevitável da mudança social. Yuan Shikai chegou ao extremo de se autodeclarar o novo Imperador da nação no final de mil novecentos e quinze, buscando restaurar o absolutismo. Pouco tempo depois, em mil novecentos e dezessete, Zhang Xun também agiu proclamando formalmente a restauração do já decaído Império da Dinastia Qing. Aproveitando-se dessa profunda fragilidade interna e do caos institucional, o expansionismo do Japão apresentou as humilhantes Vinte e Uma Exigências. Esse ultimato diplomático e político ocorreu logo no início do ano de mil novecentos e quinze, visando subjugar a soberania do território chinês. Com a morte de Yuan Shikai em junho de 1918, a situação piorou drasticamente, e a China logo se transformou em uma nação partida. O país ficou sitiado por sérias e violentas divisões internas promovidas diretamente por diferentes grupos rivais de Senhores da Guerra regionais. Mesmo diante desse cenário caótico, o líder revolucionário Sun Yat-sen permaneceu firmemente comprometido com o ideal do republicanismo democrático. Ele continuou de forma incansável a sua luta pela revolução democrática, mas, infelizmente, as novas insurreições que liderou falharam sucessivamente. Esses fracassos militares e políticos acabaram por exacerbar ainda mais os diversos e profundos problemas estruturais que assolavam a sociedade chinesa.

Paralelamente à crise política, o ambiente intelectual fervilhava com novas ideias, impulsionado por pensadores que buscavam renovar a cultura nacional. Chen Duxiu, um influente intelectual que defendia fervorosamente a ciência e a democracia, fundou a inovadora revista Juventude no ano de 1915, publicação que mais tarde passaria a se chamar Nova Juventude. Esse periódico de vanguarda liderou a criação do Movimento Nova Cultura, que serviu essencialmente como a base intelectual para o Movimento de Quatro de Maio. No entanto, o verdadeiro gatilho para a explosão das massas foi o retumbante fracasso diplomático da China na Conferência de Paz de Paris. Durante a primeira metade de 1919, as nações aliadas vencedoras da Primeira Guerra Mundial se reuniram na capital francesa com o objetivo de estabelecer formalmente os termos de paz após o grande conflito. Ocorre que essas potências estrangeiras ignoraram os legítimos interesses da China, apesar de o país ter participado ativamente como nação vitoriosa. Em uma decisão ultrajante, os aliados optaram por transferir para o Japão o controle dos territórios em Shandong, que antes eram dominados pela Alemanha. A notícia sobre a perda de Shandong resultou em um enorme clamor popular, desencadeando uma onda de indignação que varreu os principais centros urbanos.

Assim, no emblemático dia 4 de maio de 1919, mais de três mil estudantes de diversas escolas e universidades se reuniram em protesto pacífico na histórica e simbólica Praça da Paz Celestial. A indignação estudantil rapidamente escalou contra as autoridades submissas; os manifestantes espancaram o político pró-Japão Zhang Zongxiang e, em seguida, colocaram fogo na residência do ministro de Estado Cao Rulin. Esse ato de revolta foi brutalmente suprimido pelas forças repressoras do governo dos Senhores da Guerra do norte, que encerrou temporariamente o ato. A chama da resistência, contudo, não se apagou com a violência policial; pelo contrário, em três de junho, outro grupo de estudantes ativistas foi preso. Esses jovens foram detidos em massa pelas forças de segurança quando foram destemidamente às ruas protestar contra a tirania e a opressão vigentes. A virada decisiva do movimento aconteceu logo depois, em 5 de junho, quando os funcionários e os operários de fábricas de Shanghai decidiram agir. Eles demonstraram um apoio fundamental ao movimento dos estudantes de Pequim, largando suas ferramentas de trabalho e paralisando a produção industrial. Esse momento representou o verdadeiro ponto crítico para a classe trabalhadora chinesa, que entrou de forma inédita na arena política como força independente. A partir dali, os operários se tornaram um componente de imenso significado e peso político dentro desse grande movimento de contestação nacional. Posteriormente, cidadãos de inúmeras outras cidades responderam ao chamado; mais estudantes saíram das universidades, sindicatos cruzaram os braços e os comerciantes locais fecharam as portas de suas lojas em solidariedade. Essa mobilização conjunta gerou uma gigantesca manifestação nacional, provocando uma turbulência sem precedentes em toda a extensão do país. Encurralado e enfrentando uma pressão insustentável vinda de todas as camadas sociais, o governo dos Senhores da Guerra do norte foi obrigado a recuar. A liderança estatal teve de libertar imediatamente os estudantes que haviam sido presos e afastar os funcionários pró-japoneses de seus cargos públicos. O ápice dessa vitória popular ocorreu no dia vinte e oito de junho, quando a delegação chinesa se ausentou da Conferência de Paz de Paris, recusando-se terminantemente a assinar o humilhante tratado de paz com as potências.

“賣國求榮” (em caracteres chineses tradicionais). A leitura da direita para a esquerda (como era o padrão na época) traduz-se em pinyin como mài guó qiú róng. A expressão é um idioma político clássico (chengyu) que significa literalmente “Vender o próprio país em busca de glória pessoal” (ou “Trair a pátria por honrarias”).
O Movimento de Quatro de Maio consolidou-se como um evento marcante e divisor de águas na longa e complexa história moderna da grande nação chinesa. Ele promoveu de forma acelerada o progresso social e a difusão das ideias do marxismo, que começaram a circular amplamente entre a intelectualidade. O movimento integrou de maneira orgânica a teoria marxista com as lutas do movimento operário chinês que se fortalecia no dia a dia das fábricas. Essa fusão histórica criou as condições materiais e ideológicas perfeitas para a futura fundação do Partido Comunista da China, com sua veia revolucionária. A insurreição desencadeou uma busca coletiva pela verdade e por uma pátria forte, atraindo pessoas de absolutamente todas as esferas da vida social. Após o encerramento do movimento, um número cada vez maior de chineses revolucionários passou a se reunir convictamente sob a bandeira do marxismo. Foi graças a essa profunda transformação estrutural que, no ano de 1921, o Partido Comunista da China foi fundado oficialmente, virando, de uma vez por todas, uma nova e gloriosa página na história chinesa.
