Início A História da Reconstrução da China A Longa Marcha (Série A História da Recontrução da China)

A Longa Marcha (Série A História da Recontrução da China)

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“Marchando rumo à vitória”, pintura a óleo de Peng Bin que retrata o Presidente Mao Tsetung e os dirigentes comunistas Zhou Enlai e Chu Te deixando a Conferência de Tsunyi e marchando ao lado de combatentes do Exército Vermelho.

A história da moderna reconstrução e revitalização da nação chinesa encontra-se intrinsecamente ligada aos eventos dramáticos e heroicos que moldaram o século vinte, sendo a Longa Marcha um dos mais emblemáticos. Este movimento estratégico épico, empreendido pela força principal do Exército Vermelho dos Trabalhadores e Camponeses da China entre os anos de 1934 e 1936, transformou-se no cadinho político e ideológico onde se forjou a futura liderança da Revolução Chinesa. No período que antecedeu a marcha, as bases revolucionárias encontravam-se estabelecidas de forma próspera nas margens sul e norte do rio Yangtzé, servindo como núcleos de experimentação social e camponesa. Contudo, a estabilidade dessas regiões foi severamente abalada por uma sucessão de erros estratégicos no comando central do Partido Comunista da China, gerados principalmente pelo dogmatismo de uma linha conhecida como “esquerdista”. Essa abordagem teórica rígida e descolada da realidade concreta do terreno impediu que o Exército Vermelho conseguisse repelir de maneira eficaz a quinta campanha de “cerco e supressão” promovida pelas forças nacionalistas do Kuomintang. Diante da iminência do aniquilamento total e da pressão asfixiante do inimigo, o Exército Vermelho Central, que constituía a principal força do Primeiro Exército de Frente, viu-se forçado a adotar uma drástica e dolorosa ação de retirada estratégica que alteraria para sempre os rumos da história nacional.

O início dessa monumental jornada ocorreu em meados de outubro de 1934, momento em que unidades sob a autoridade direta do Comitê Central do Partido Comunista e do Exército Vermelho Central abandonaram suas bases de origem de forma apressada. Mais de oitenta mil pessoas, entre soldados, quadros políticos e pessoal de apoio, iniciaram uma marcha em direção ao desconhecido, carregando consigo o destino do movimento revolucionário. A retirada não ficou restrita a esse grupo inicial, expandindo-se rapidamente para outras frentes de combate pelo país; de meados de novembro daquele ano até o mesmo período do ano seguinte, outras importantes forças integraram o movimento de retirada estratégica de suas respectivas bases continentais. Entre essas unidades destacaram-se o Vigésimo Quinto Exército, o Quarto Exército da Frente e os Grupos do Segundo e do Sexto Exércitos, que abandonaram posições consolidadas em regiões como Hubei-Henan-Anhui, Sichuan-Shaanxi e Hunan-Hubei-Sichuan-Guizhou. Essa imensa e coordenada movimentação de massas militares por todo o território chinês refletia a gravidade da crise, mas também a resiliência de um exército que se recusava a capitular diante da superioridade numérica e tecnológica das forças governamentais que os perseguiam implacavelmente.

A Longa Marcha liderada por Mao Tsé-Tung (linha vermelha) que percorreu a China do Sul ao Norte em um grande arco no sentido horário.

A primeira etapa da Longa Marcha, no entanto, foi marcada por imensas dificuldades táticas e pelo agravamento dos erros cometidos pela liderança de orientação “esquerdista”, que durante o processo de retirada incorreu na falha grave do chamado flightism, caracterizado por um recuo desordenado e passivo que priorizava a fuga em detrimento de uma postura de combate ativa e audaz. Essa condução equivocada e a falta de flexibilidade operacional cobraram um preço extremamente alto e trágico para o contingente revolucionário. Após romperem com enorme esforço o quarto bloqueio montado pelas tropas do Kuomintang, as forças do Exército Vermelho sofreram baixas massivas e catastróficas, vendo o seu número total de integrantes despencar drasticamente de mais de oitenta mil para cerca de apenas trinta mil combatentes. Essa redução brutal colocou a revolução em uma situação de extrema passividade, vulnerabilidade e perigo iminente de extinção, exigindo uma mudança urgente e profunda nos rumos políticos e militares do partido. O momento de virada histórica ocorreu em janeiro de 1935, logo após o Exército Vermelho conquistar a cidade de Zunyi, um centro de grande importância estratégica localizado no norte da província de Guizhou. Naquela localidade, o Comitê Central do Partido Comunista da China convocou e realizou uma histórica reunião ampliada do seu Politburo, voltada especificamente para tratar das prementes questões militares e organizacionais que ameaçavam a sobrevivência do movimento.

Esta imagem é um dos símbolos mais potentes da iconografia revolucionária chinesa. Nela, vemos Mao Zedong montado em seu cavalo, cercado por soldados e companheiros durante o período que definiu o destino da China moderna. A mulher que aparece atrás de Mao é a sua terceira esposa, He Zizhen, uma revolucionária que sobreviveu a ferimentos graves de estilhaços durante a retirada.

A Reunião de Zunyi tornou-se o divisor de águas definitivo para o sucesso da marcha e para o futuro da própria China, pois nela o dogmatismo anterior foi formalmente rejeitado e Mao Zedong foi eleito membro do Comitê Permanente do Politburo. Esse evento crucial estabeleceu, de maneira firme e incontestável, a liderança de Mao tanto nas decisões políticas do Partido quanto no comando operacional do Exército Vermelho, permitindo a adoção de táticas de guerrilha altamente flexíveis, móveis e imprevisíveis. Sob esta nova e revigorada liderança, as forças revolucionárias iniciaram uma série de manobras militares brilhantes que desorientaram completamente os generais nacionalistas. Mao e os demais comandantes lideraram o Exército Vermelho Central em uma sequência de movimentos audaciosos, atravessando o rio Chishui por quatro vezes consecutivas e cruzando o perigoso rio Wujiang em direção ao sul. Para iludir o inimigo, simularam uma tática de ataque contra a cidade de Guiyang e invadiram repentinamente Kunming, avançando em seguida para atravessar estrategicamente o temido rio Jinsha. Com essas ações de extrema mobilidade e genialidade tática, o Exército Vermelho conseguiu finalmente evadir-se do cerco e da interceptação que envolviam centenas de milhares de tropas inimigas que os cercavam.

A marcha prosseguiu com sucesso através de terrenos geográficos de extrema dificuldade e complexidade social, incluindo a marcha bem-sucedida pela região habitada pela etnia Yi, localizada nas montanhas Daliang, na província de Sichuan, onde a diplomacia e o respeito cultural garantiram a passagem segura das tropas. Logo em seguida, os revolucionários lutaram bravamente e tomaram a histórica ponte Luding sobre o tempestuoso rio Dadu, um feito de coragem mítica que evitou o massacre das forças operárias. Na sequência, os soldados enfrentaram o desafio da própria natureza ao escalarem as temíveis montanhas Jiajin, cujos picos elevados permanecem cobertos de neve durante o ano todo, testando os limites físicos dos combatentes. Em junho de 1935, superando o frio extremo e a rarefação do ar, eles conseguiram alcançar a região de Maogong, onde uniram suas forças com o Quarto Exército da Frente, que era liderado por Zhang Guotao e Xu Xiangqian. Após essa importante junção de forças, o Comitê Central do Partido Comunista tomou a decisão estratégica de marchar em direção ao norte com o objetivo claro de estabelecer uma nova e sólida base revolucionária na intersecção das províncias de Sichuan, Shaanxi e Gansu, consolidando o poder comunista na região setentrional.

Marchando rumo à vitória”, pintura a óleo de Peng Bin que retrata o Presidente Mao Tsetung e os dirigentes comunistas Zhou Enlai e Chu Te deixando a Conferência de Tsunyi e marchando ao lado de combatentes do Exército Vermelho.

Contudo, a trajetória em direção ao norte não foi isenta de severos conflitos internos e desafios políticos profundos, uma vez que o Comitê Central do Partido Comunista da China precisou contestar e derrotar as tentativas errôneas e divisionistas de Zhang Guotao, que defendia a ida das tropas para o sul e buscava cindir a unidade do Partido. Mantendo a firmeza ideológica e a clareza estratégica, a liderança insistiu em prosseguir resolutamente rumo ao norte, enfrentando alguns dos piores cenários geográficos de toda a jornada. Os soldados cruzaram imensas planícies e pântanos desertos, onde muitos pereceram devido à fome e à exaustão, forçaram a passagem militar pela montanha Lazikou através de combates intensos e atravessaram as difíceis montanhas Liupan. Finalmente, em 19 de outubro de 1935, as tropas alcançaram a cidade de Wuqi, localizada no norte de Shaanxi, selando o sucesso da retirada estratégica do Exército Vermelho Central. Esta força principal havia cruzado nada menos que onze províncias chinesas e coberto uma distância monumental de doze mil e quinhentos quilômetros a pé. O desfecho triunfante de toda a epopeia consolidou-se em outubro de 1936, quando o Segundo e o Quarto Exércitos da Frente uniram definitivamente suas forças com o Primeiro Exército no norte do país, encerrando oficialmente a Longa Marcha em um ambiente de triunfo e renovada esperança. O sucesso dessa jornada hercúlea foi fundamental para que a revolução chinesa escapasse do perigo iminente de aniquilação e superasse a maré de uma grande crise estrutural, legando à posteridade o Espírito da Longa Marcha, um poderoso e perene ímpeto que continuou a guiar o Partido Comunista e o Exército Popular no longo processo de reconstrução, soberania e revitalização da nação chinesa.

Exército Vermelho Atravessando as Planícies (红军过草) | 1976-77. | Crédito: Zhang Wenyuan (张文源). Óleo sobre tela. Museu Militar da Revolução Popular Chinesa

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