Longe de um retorno ao dirigismo analógico do passado, a soberania tecnológica da China amadurece ao fundir a liderança centralizada do Partido com as leis da economia de mercado, transformando o capital, a civilização digital e as regras do comércio global em vetores de segurança nacional.
A entrada da República Popular da China em um momento histórico especial tem exigido de seus formuladores de políticas públicas e da comunidade econômica uma profunda reflexão teórica sobre as engrenagens que movem a soberania tecnológica do país. Nos últimos anos, os debates centram-se na consolidação do novo sistema nacional, um arranjo institucionalizado que se tornou a ferramenta indispensável para impulsionar a inovação original, coordenar grandes avanços científicos e solucionar de forma definitiva os estrangulamentos técnicos conhecidos como gargalos. Para além das narrativas que enxergam nessa mobilização um mero retorno ao planejamento centralizado do século passado, a realidade demonstra que o novo sistema nacional se ergue, fundamentalmente, sobre as condições e os princípios básicos de uma economia de mercado socialista. Essa característica delimita os fundamentos institucionais do modelo, traduzindo-se em uma sublimação teórica sobre como o Estado pode exercer um controle macroeconômico refinado sem sufocar as forças produtivas. Enquanto a era da economia planificada utilizava a mobilização nacional por meio de ordens administrativas estritas para erguer a infraestrutura de base, o sistema contemporâneo opera sob uma lógica radicalmente distinta, utilizando o dinamismo do mercado para promover uma abertura de alto nível e integrar o país de forma soberana aos fluxos globais de riqueza.
O princípio orientador do novo sistema nacional estabelece que sua atuação em grandes projetos de pesquisa científica não invalida ou substitui o sistema econômico básico da nação, mas busca otimizar suas funções e corrigir suas falhas endógenas. A essência do modelo repousa na combinação efetiva do poder regulador do governo com a força descentralizada do mercado, delimitando claramente as fronteiras de atuação de cada esfera. Sob essa premissa, o que o mercado possui capacidade de executar de forma eficiente deve ser integralmente deixado ao mercado, evitando de maneira deliberada os problemas históricos de intervenção administrativa excessiva e monopolização governamental que caracterizaram as primeiras décadas da República Popular. A transição exige abandonar a antiga abordagem abrangente de comando e adotar um modelo focado em alavancagem, transformando a imposição burocrática na construção de uma comunidade de interesses compartilhados que utiliza plataformas tecnológicas para alinhar os atores públicos e privados. Esse rearranjo torna-se vital porque o desenvolvimento da ciência e da tecnologia modernas transcendeu as fronteiras tradicionais de propriedade, divisões disciplinares e limites nacionais, demandando uma inovação integrada em larga escala e uma cooperação global que só podem ser mediadas por mecanismos flexíveis de mercado.
A urgência dessa inovação institucional reflete-se na necessidade de superar a crescente contenção ocidental e resolver as deficiências internas que ainda geram vulnerabilidades estruturais no tecido industrial chinês. Os problemas de gargalo que o país enfrenta nas áreas de alta tecnologia decorrem tanto das vantagens produtivas consolidadas pelas potências ocidentais quanto dos desafios inerentes à superação do nível de desenvolvimento tecnológico zero em setores de fronteira. Para reverter essa situação de dependência, o novo sistema nacional rejeita o isolacionismo e preconiza novas relações de colaboração horizontal que promovem o acoplamento sistêmico e os efeitos de aglomeração de múltiplos atores econômicos. Essa transformação exige, obrigatoriamente, a superação do isolamento entre as cadeias industriais e de suprimentos domésticas por meio da construção de um mercado interno unificado, eliminando as barreiras regionais e atritos internos que reduzem a competitividade global da indústria nacional. Na atual fase de desenvolvimento da China, em que o crescimento econômico deixou de depender da manufatura intensiva em mão de obra para se assentar em indústrias intensivas em capital e alta tecnologia, os conflitos comerciais migraram dos países em desenvolvimento para as nações avançadas. Diante dessa repressão conjunta e de atritos inevitáveis, a orientação política de Pequim consiste em gerenciar suas estratégias externas com serenidade, utilizando canais puramente econômicos para desarmar as investidas geopolíticas.
A atuação internacional do novo sistema nacional sob a égide da abertura de alto nível afasta-se de qualquer postura antiglobalização, focando-se no uso estratégico e habilidoso das regras econômicas internacionais e das normas estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio para salvaguardar o desenvolvimento do país. Frente à repressão ocidental baseada na manipulação de regulamentos e na jurisdição extraterritorial, a China responde estimulando suas corporações multinacionais, muitas das quais figuram no topo da lista Fortune Global 500, a quebrarem os monopólios de mercado por meio da competição comercial direta, o que se mostra muito mais eficaz do que o uso do poder político nacional bruto para romper barreiras ideológicas. Para consolidar essa posição nos mercados internacionais de alta tecnologia e serviços de alto valor agregado, o país enfrenta o desafio urgente de treinar equipes profissionais com profundo conhecimento em direito comercial e normas econômicas globais, superando uma fragilidade histórica. Ao integrar a liderança política unificada do Partido às leis da economia de mercado socialista e às características da era digital, o novo sistema nacional estabelece que o poder estatal é um recurso estratégico escasso que não deve ser consumido indiscriminadamente em disputas corporativas. O futuro dos mercados internacionais deve ser conquistado pelo trabalho árduo e pela resiliência de empresas e empreendedores soberanos, apoiados por um Estado inteligente que compreende que o cumprimento das regras e das leis é o verdadeiro mecanismo capaz de sustentar o poder industrial de uma nação.

A Nova Matriz Corporativa: Evidências Práticas do Ecossistema de IA e Veículos Elétricos sob o Xinxing Juguo Tizhi
Como a China Alinha Gigantes Privados às Metas de Segurança do Estado
A tradução operacional do novo sistema nacional em resultados econômicos tangíveis e de alta qualidade pode ser observada na forma como a República Popular da China integrou as forças regulatórias da era digital aos pilares de sua economia de mercado socialista. Longe de representar um retorno aos comandos rígidos e analógicos do século passado, este arranjo institucionalizado converteu o conhecimento de mercado e o poder computacional de seus grandes conglomerados em recursos estratégicos vitais para o planejamento de Estado. Um dos exemplos práticos mais contundentes dessa dinâmica manifesta-se na estruturação das chamadas Plataformas Nacionais de Inovação Aberta em Inteligência Artificial, coordenada diretamente pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Em vez de criar institutos estatais isolados para desenvolver algoritmos do zero, o governo chinês delegou missões específicas de interesse nacional para os seus campeões tecnológicos privados de acordo com suas especialidades de mercado. Corporações como a Baidu receberam a liderança para desenhar os sistemas de condução autônoma, a Alibaba assumiu a coordenação dos cérebros urbanos para a eficiência das cidades inteligentes, enquanto a Tencent liderou a inteligência médica computadorizada e a iFlytek focou no processamento de linguagem natural. O Estado atua definindo os padrões de segurança e alocando linhas de crédito por meio de bancos públicos, mas permite que as leis de concorrência do mercado ditem a velocidade do avanço técnico, acelerando a transição de ideias em mercadorias de alto valor agregado e criando um ecossistema digital independente que hoje rivaliza diretamente com o ecossistema norte-americano do Vale do Silício.
Outra evidência empírica de como o fundamento corporativo contemporâneo difere do passado reside na reestruturação radical do setor de energia limpa e na expansão avassaladora da cadeia de valor dos veículos elétricos e baterias de lítio, liderada por empresas como a BYD e a CATL. Na antiga era da economia planificada, um projeto dessa magnitude exigiria subsídios estatais eternos e cotas de distribuição compulsória que frequentemente resultavam em ineficiência e obsolescência técnica. Sob o novo tipo de sistema nacional, a liderança política unificada do Partido utilizou o imenso mercado interno unificado da China como um laboratório de teste competitivo, forçando a colaboração horizontal e o acoplamento sistêmico entre fornecedores de matérias-primas refinadas, fabricantes de chips automotivos e desenvolvedores de software de conectividade. O governo central e as administrações municipais abandonaram a interferência direta nas linhas de produção para se concentrarem estritamente na prestação de serviços de inovação, como a construção massiva e coordenada de redes públicas de carregamento elétrico ultra-rápido, a facilitação de terrenos industriais e a isenção tributária condicionada ao cumprimento de metas rigorosas de eficiência energética. Esse modelo gerou uma ressonância sincronizada que permitiu à indústria nacional quebrar o monopólio secular das montadoras ocidentais tradicionais não por meio de decretos políticos, mas por meio de uma competitividade de mercado e capacidade de gestão técnica sem precedentes históricos, provando que o novo sistema nacional alcançou a maestria de usar o capital e as regras do comércio globalizado para blindar e projetar a soberania industrial e a segurança estratégica do país na nova era.
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