O nascimento e a consolidação do Pensamento de Mao Zedong foram marcados por um processo histórico complexo e tortuoso, indissociável da própria evolução do Partido Comunista da China (PCCh). Logo após a sua fundação, o Partido buscou conduzir a nova revolução sob a orientação direta do marxismo-leninismo clássico, mas deparou-se com imensos obstáculos práticos que exigiram uma reavaliação completa de suas táticas e estratégias. No final da década de mil novecentos e vinte e no início da década de mil novecentos e trinta, o movimento comunista na China foi severamente prejudicado por erros decorrentes de uma interpretação dogmática do marxismo. Havia, por parte de várias lideranças da época, uma santificação das resoluções emanadas da Internacional Comunista e uma tentativa de replicar cegamente a experiência da União Soviética, que exercia enorme influência sobre o cenário internacional e sobre os rumos do próprio partido chinês. Esse apego inflexível a modelos estrangeiros, que não correspondiam à realidade do campo chinês, levou a revolução até o limite do colapso e da destruição total.
Foi justamente na resistência e na luta contra essas tendências teóricas errôneas que o Pensamento de Mao Zedong formou-se gradualmente, emergindo como uma resposta pragmática aos fracassos gerados pelo dogmatismo. Esse pensamento desenvolveu-se por meio do processo de resumir as experiências históricas relevantes, compreendendo que a revolução chinesa deveria traçar seu próprio caminho em vez de apenas traduzir manuais soviéticos. O amadurecimento completo e a sistematização dessa ideologia ocorreram no período que se estende entre o final da Revolução Agrária e o desenrolar da Guerra contra a Agressão Japonesa, momentos em que a teoria foi testada sob o fogo do combate real e da mobilização popular. O arcabouço ideológico continuou a se expandir e a demonstrar sua vitalidade durante os anos cruciais da Guerra de Libertação, culminando na fundação da República Popular da China em 1949 e estendendo sua aplicação para as tarefas da reconstrução nacional pós-guerra.
O reconhecimento formal e institucional desse esforço teórico ocorreu no Sétimo Congresso Nacional do Partido Comunista da China (leia aqui o texto sobre o Sétimo Congresso), realizado no ano de 1945, quando se estabeleceu o status do Pensamento de Mao Zedong como um princípio orientador indispensável para o futuro. Essa consagração foi oficialmente incorporada ao Estatuto do Partido, simbolizando a união ideológica em torno de um modelo nacional de socialismo. Naquela ocasião histórica, a liderança de Liu Shaoqi desempenhou um papel central ao resumir o Pensamento de Mao Zedong de maneira sistemática em seu célebre “Relatório sobre a revisão do Estatuto do Partido”, fixando os parâmetros conceituais que guiariam as gerações seguintes.
Décadas mais tarde, mesmo após as profundas transformações e os debates internos que acompanharam o desenvolvimento da China, a validade e a importância histórica desse pensamento foram preservadas e reafirmadas. Durante a Sexta Sessão Plenária do Décimo Primeiro Comitê Central do Partido, em junho de 1981, foi aprovada a “Resolução sobre determinadas questões na história de nosso Partido desde a fundação da República Popular da China”. Este documento de enorme peso político avaliou a situação histórica de Mao Zedong e do seu pensamento de forma prática e equilibrada, separando os erros conjunturais do valor perene de sua teoria, e reiterou firmemente o seu estatuto de ideologia norteadora do Partido na modernidade.

A abrangência desse sistema teórico é vasta, cobrindo uma ampla gama de conteúdo que enriqueceu e desenvolveu o marxismo-leninismo clássico com contribuições originais e engenhosas. O Pensamento de Mao Zedong trouxe inovações profundas para a teoria da Nova Revolução Democrática, redesenhando as alianças de classe e o papel do campesinato no processo de transformação social. Da mesma forma, forneceu as diretrizes fundamentais para a subsequente revolução socialista e o desenvolvimento econômico do país, além de ter moldado a própria natureza da defesa nacional por meio da construção do exército revolucionário e da formulação de estratégias, políticas e táticas militares inovadoras, como a guerra popular. No campo institucional e humano, suas formulações revolucionaram o trabalho ideológico e político, o fomento ao trabalho cultural voltado às massas e as metodologias de construção do próprio Partido Comunista da China como vanguarda organizada.
Ao se consolidar como um sólido resumo teórico dos princípios e da vasta experiência prática acumulada ao longo de décadas de lutas, este sistema transcendeu a individualidade de seu principal proponente para se tornar o resultado definitivo da sabedoria combinada de todo o Partido Comunista da China.
No cerne de toda essa estrutura intelectual encontra-se o que os teóricos denominam a “alma viva” do Pensamento de Mao Zedong, que consiste na perspectiva, no ponto de vista e no método aplicados para decifrar a realidade social e política do país. Essa essência metodológica e filosófica está fundamentada em três aspectos essenciais e indissociáveis, que guiaram a China na superação de suas crises mais profundas. O primeiro desses aspectos é o princípio de buscar a verdade dos fatos, uma postura que rejeita o dogmatismo abstrato e exige que a teoria nasça da análise concreta da realidade imediata. O segundo aspecto fundamental é seguir a linha da massa, o que significa que o partido e suas lideranças devem aprender com o povo, canalizar suas demandas e governar para e pelas maiorias oprimidas. O terceiro e último aspecto essencial é aderir firmemente ao princípio da independência, assegurando que o destino e o desenvolvimento da China sejam decididos de forma soberana pelo próprio povo chinês, livre de interferências e de submissões a potências externas.
Em última análise, o Pensamento de Mao Zedong representa a síntese perfeita e a integração dos princípios universais do marxismo-leninismo com a prática concreta da revolução e do desenvolvimento em solo chinês. Foi a primeira tentativa teórica verdadeiramente significativa e bem-sucedida de aplicar o socialismo científico às condições reais e particulares da China, transformando uma doutrina europeia em uma ferramenta de libertação nacional asiática. Ao se consolidar como um sólido resumo teórico dos princípios e da vasta experiência prática acumulada ao longo de décadas de lutas, este sistema transcendeu a individualidade de seu principal proponente para se tornar o resultado definitivo da sabedoria combinada de todo o Partido Comunista da China. É, por essa razão, considerado até os dias atuais como o tesouro espiritual e político mais precioso do Partido e o alicerce indispensável sobre o qual repousa toda a saga histórica da reconstrução da nação chinesa.

