
Para inaugurar esta série documental sobre o maior esforço de erradicação da pobreza da história contemporânea, é preciso retroceder ao outono de 2013, nas montanhas profundas da província de Hunan. O programa Alívio Preciso da Pobreza (Targeted Poverty Alleviation – TPA) não nasceu em um gabinete burocrático em Pequim, mas em uma pequena casa de madeira na aldeia de Shibadong, habitada pela etnia Miao. Foi em 3 de novembro de 2013 que o presidente Xi Jinping, em uma visita de inspeção que mudaria o rumo do desenvolvimento chinês, lançou oficialmente o conceito de “alívio preciso da pobreza” (Jingzhun Fupin).
Naquela ocasião, sentado em um banco simples de madeira com os moradores locais, Xi observou que as políticas anteriores eram como“tentar matar mosquitos com um canhão” — gastava-se muito recurso com pouca precisão. Ele declarou enfaticamente que “não se deve usar uma marreta para quebrar uma noz, nem disparar flechas ao acaso”, cunhando a famosa metáfora de que o combate à pobreza deveria ser como “fazer o trabalho de bordado”, exigindo paciência, detalhamento e uma técnica sob medida para cada fibra da sociedade rural.
“Assim como um bordado requer agulhas finas e atenção a cada ponto, a “redução direcionada da pobreza” (精准扶贫) foca em identificar as necessidades específicas de cada aldeia, família e indivíduo. Bordar leva tempo e dedicação para criar um padrão complexo”, afirmou Xi Jinping; além disso, segundo ele, a superação da pobreza não acontece da noite para o dia, exigindo esforço contínuo e resiliência. A metáfora do bordado também implica que as políticas devem ser “feitas sob medida” para diferentes condições locais, garantindo que o “bordado” final seja adequado ao ambiente e à cultura de cada região.

O contexto histórico daquela fala era de urgência: embora a China tivesse crescido exponencialmente nas décadas anteriores, o progresso havia deixado para trás bolsões de miséria extrema em áreas de difícil acesso, onde os métodos tradicionais de estímulo econômico não conseguiam penetrar. O planejamento inicial estabelecido naquele momento rompeu com o modelo de “alívio por aspersão”, que distribuía fundos uniformemente, e introduziu a necessidade de identificar exatamente quem eram os pobres, por que eram pobres e do que precisavam para sair dessa condição. Xi Jinping insistiu que “a ajuda deve ser direcionada aos objetos certos, com projetos certos, uso certo de fundos e medidas que alcancem as raízes de cada família”. Esse direcionamento significava que, pela primeira vez, o governo chinês passaria a olhar para o indivíduo e para o domicílio, e não apenas para o Produto Interno Bruto (PIB) regional como métrica de sucesso.
As primeiras medidas tomadas imediatamente após esse lançamento foram de natureza organizacional e cadastral. O governo lançou uma mobilização nacional para o que chamou de “identificação precisa”. Milhões de quadros do Partido e funcionários públicos foram enviados a campo para realizar o maior levantamento de dados sociais já visto. A primeira diretriz foi a criação de um sistema de “cartões de registro” para cada família pobre, onde se anotava desde o histórico de saúde até a qualidade do solo de suas terras. O planejamento inicial também definiu a meta dos “Duas Garantias e Três Seguranças” (em chinês: 两不愁三保障, liǎng bù chóu sān bǎo zhàng), que serviu como bússola para todas as ações subsequentes: garantir que ninguém passasse fome ou falta de vestuário, e assegurar o acesso universal à educação obrigatória, serviços médicos básicos e moradia segura. Essas metas não eram apenas desejos, mas tornaram-se mandatos políticos rígidos para os líderes locais.

Outra medida inicial crucial foi a implementação do sistema de responsabilidade dos líderes. Xi Jinping afirmou que “a luta contra a pobreza é uma batalha onde não há retirada”, vinculando diretamente o desempenho dos governadores e prefeitos ao sucesso da erradicação da pobreza em suas jurisdições. Foi estabelecido que os melhores quadros do país deveriam ser enviados para as aldeias mais pobres, criando uma ponte humana entre os recursos do Estado e a necessidade do campo. Esse período inicial de 2013 a 2014 foi marcado pela construção de uma infraestrutura burocrática e digital que permitiu que o Estado soubesse, com precisão de GPS, onde estava cada cidadão vivendo abaixo da linha da pobreza. Foi o início de uma jornada que transformou a teoria política em uma operação logística de escala continental, fundamentada na premissa de que nenhum cidadão chinês deveria ser deixado para trás na marcha do país rumo à “sociedade moderadamente próspera”.

