Imagine um modelo econômico capaz de sustentar a maior potência fabril do planeta blindando-a contra crises internacionais, sanções estrangeiras e bloqueios tecnológicos. É exatamente essa a proposta da estratégia da dupla circulação — conhecida em chinês como 双循环 e transliterada em pinyin como shuāng xúnhuán —, uma diretriz que redefine o equilíbrio entre o mercado interno e o comércio global para garantir a soberania nacional em tempos de incerteza geopolítica. Essa política foi formalmente introduzida pelo presidente Xi Jinping em maio de 2020, durante uma reunião do Comitê Permanente do Politburo do Partido Comunista Chinês, e posteriormente consolidada como o eixo central do 14º Plano Quinquenal (2021-2025) aprovado em março de 2021.
A formulação dessa política foi acelerada por uma tempestade perfeita de eventos geopolíticos e geoeconômicos que expuseram a vulnerabilidade chinesa à dependência externa [1]. O principal catalisador foi a guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos em 2018 sob a administração Donald Trump, que escalou para uma severa guerra tecnológica com sanções severas contra gigantes chinesas como a Huawei [1] em 2019 e restrições ao acesso a semicondutores avançados. Esse cenário de contenção ocidental foi agravado pela eclosão da pandemia de Covid-19 no início de 2020, que paralisou fronteiras, rompeu cadeias globais de suprimentos e acentuou a retórica de “desacoplamento” (decoupling) econômico promovida por Washington e Bruxelas. Diante do isolamento iminente e do fechamento de mercados externos tradicionais, a liderança chinesa compreendeu a urgência de blindar sua economia.

Assim, a estratégia da dupla circulação representa uma profunda reconfiguração do modelo de desenvolvimento econômico da maior potência econômica global – em Paridade de Poder de Compra (PPC) -, com impactos inevitáveis para a geopolítica e os mercados internacionais. Proposta em um contexto de crescentes tensões comerciais com o Ocidente e de esgotamento do modelo de crescimento puramente voltado à exportação de manufaturas de baixo valor agregado, essa diretriz busca equilibrar duas forças dinâmicas. A circulação interna, colocada agora como o eixo principal, foca na expansão do mercado consumidor doméstico, na inovação tecnológica endógena e na autossuficiência produtiva de setores críticos. Por outro lado, a circulação externa atua de forma complementar, mantendo a China integrada às cadeias globais de suprimentos, atraindo investimentos estrangeiros seletivos e expandindo sua influência de mercado. A grande virada estratégica dessa política não é o isolamento, mas sim a criação de uma imunidade econômica contra choques externos, sanções tarifárias e tentativas de contenção ocidental, garantindo que o motor do crescimento chinês passe a depender prioritariamente de sua própria capacidade de consumo e inovação.
Para os países do Sul Global, e de maneira muito particular para o Brasil, a dupla circulação chinesa oferece profundas lições econômicas e estratégicas que exigem uma revisão urgente das políticas de desenvolvimento nacional. A primeira grande lição é a urgência da reindustrialização e do fortalecimento do mercado interno como salvaguardas contra a volatilidade global. Ao priorizar a demanda doméstica, a China demonstra que a dependência excessiva das exportações de commodities deixa as nações vulneráveis a crises externas e flutuações de preços internacionais. O Brasil, historicamente posicionado como um grande exportador de matérias-primas agrícolas e minerais para o mercado chinês, precisa compreender que a nova postura chinesa visa, a longo prazo, reduzir também a sua própria vulnerabilidade de importação, buscando alternativas de suprimento ou maior eficiência interna. Isso sinaliza que o modelo agroexportador brasileiro, embora altamente lucrativo no presente, enfrenta um teto estratégico claro e não substitui a necessidade de uma base industrial forte, tecnológica e diversificada.
Outro ensinamento crucial reside na centralidade da soberania tecnológica; a China compreendeu que a liderança nas indústrias do futuro, como inteligência artificial, transição energética e semicondutores, é o único caminho para escapar da armadilha do rendimento médio. O Sul Global não pode se contentar em ser apenas um consumidor de tecnologias desenvolvidas no Norte ou na Ásia Oriental. Países como o Brasil devem utilizar suas vantagens comparativas, como a matriz energética limpa e a biodiversidade, para alavancar complexos industriais de alta tecnologia e inovação local.
Além disso, a estratégia de Xi Jinping redefine a forma como as nações em desenvolvimento devem se inserir no comércio internacional. Em vez de uma integração passiva que aceita as regras ditadas pelas finanças globais tradicionais, a China propõe uma inserção ativa, baseada no fortalecimento mútuo e na criação de novas rotas e mecanismos de financiamento, como se observa na complementaridade com a Iniciativa Cinturão e Rota. Para o Brasil, isso reforça a importância de diversificar parcerias comerciais, adensar as cadeias de valor regionais na América Latina e negociar com Pequim não apenas a venda de produtos primários, mas a transferência de tecnologia e investimentos em infraestrutura logística que gerem valor local. Em uma análise conclusiva, a dupla circulação chinesa é um manifesto prático de pragmatismo econômico e planejamento de longo prazo, mostrando que a verdadeira resiliência soberana nasce da capacidade de articular a força interna de uma nação com as oportunidades do cenário internacional, uma lição que o Brasil e o Sul Global precisam absorver para moldar seu próprio destino no século XXI.
Referências Bibliográficas
CHINA. State Council. The 14th Five-Year Plan for Economic and Social Development of the People’s Republic of China and the Long-Range Objectives Through the Year 2035. Beijing: State Council, 2021. Disponível em: www.gov.cn. Acesso em: 21 mai. 2026.
CINTRA, Marcos Antonio Macedo; SILVA, Eduardo Pinto da. A estratégia chinesa da “dupla circulação” e seus reflexos globais. Texto para Discussão, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Brasília, DF, 2021.
JINPING, Xi. The Governance of China. Beijing: Foreign Languages Press, 2022. v. 4.
NONNENMBERG, Marcelo José Braga. A disputa comercial entre Estados Unidos e China e seus impactos sobre o Brasil. Revista de Economia Contemporânea, Rio de Janeiro, v. 24, n. 2, p. 1-28, 2020.
UNCTAD. United Nations Conference on Trade and Development. Trade and Development Report 2021: From recovery to resilience: the South in a broken global economic order. Geneva: United Nations, 2021.


Ótimo texto. Muito esclarecedor para mim. A leitura dos seus textos está transformando a minha visão sobre a China.