PEQUIM — A estrutura de endividamento da China revela uma escolha deliberada que coloca o país em posição privilegiada de blindagem contra solavancos da economia global. Ao manter a fatia de investidores estrangeiros abaixo do patamar de 2% em seu mercado doméstico de títulos, Pequim reduz drasticamente a vulnerabilidade a choques financeiros externos, fuga desordenada de capitais e pressões cambiais internacionais. De acordo com dados recentes do Banco Popular da China referentes ao encerramento de 2025, o saldo de custódia do mercado de títulos chinês atingiu a marca expressiva de 196,7 trilhões de yuans (cerca de 28 trilhões de dólares americanos), consolidando um dos maiores mercados de dívida do planeta. Desse montante astronômico, a custódia detida por instituições estrangeiras somou apenas 3,5 trilhões de yuans, o que equivale a uma participação residual de 1,8% do total negociado nacionalmente.
Essa arquitetura financeira, fortemente baseada na poupança e no capital domésticos, atua como um escudo sovereign crucial em momentos de volatilidade internacional, taxas de juros globais elevadas ou tensões geopolíticas. Em um cenário em que economias emergentes frequentemente sofrem ataques especulativos ou crises de liquidez provocadas pela saída repentina de fundos estrangeiros, a China opera sob regras próprias. A esmagadora maioria dos títulos soberanos e corporativos chineses está nas mãos de credores internos com respaldo estatal, como bancos públicos e fundos institucionais locais. Esse arranjo praticamente anula o risco de um pânico bancário repentino ou de uma espiral de inadimplência induzida do exterior, garantindo a estabilidade do sistema financeiro nacional mesmo diante de turbulências nos mercados ocidentais.
A autonomia do modelo econômico chinês é reforçada pela capacidade de promover reestruturações fiscais internas massivas sem depender de financiamento externo ou de organismos internacionais. Um relatório do Conselho de Estado apontou que o endividamento total do governo encerrou 2025 em 102,5 trilhões de yuans, registrando uma avanço significativo na saneamento das finanças públicas municipais. A dívida oculta dos governos locais — historicamente vista como uma das maiores fontes de fragilidade do país — caiu para mais da metade em apenas dois anos, despencando de 14,3 trilhões de yuans no final de 2023 para 6,5 trilhões de yuans até o encerramento de 2025. Essa redução acentuada foi impulsionada por um megapacote de troca de dívidas no valor de 10 trilhões de yuans lançado no final de 2024.
O programa permitiu que governos locais substituíssem empréstimos caros e fora do balanço patrimonial por títulos governamentais formais, gerando bilhões de yuans em economia com pagamento de juros e trazendo transparência ao balanço fiscal. No âmbito da expansão de crédito controlada, o financiamento líquido de títulos do governo alcançou 13,8 trilhões de yuans em 2025, enquanto a emissão corporativa subiu para 2,4 trilhões de yuans. Ao mesmo tempo, Pequim promove uma internacionalização altamente calibrada e sob seus próprios termos, exemplificada pela entrada de 56 novas instituições estrangeiras no mercado interbancário e pela emissão acumulada de 183,06 bilhões de yuans em títulos Panda. Em suma, ao financiar sua expansão e saneamento fiscal com recursos majoritariamente domésticos, a China isola sua economia de crises financeiras globais e assegura soberania absoluta sobre sua política monetária e de desenvolvimento.
