A redefinição do conceito de dinheiro promovida pela China nos remete a uma reflexão profunda sobre as estruturas do consenso econômico ocidental contemporâneo. Enquanto as economias neoliberais e financeirizadas enxergam a moeda primariamente como uma mercadoria em si, um ativo sujeito às leis de oferta e procura e gerador de lucros por meio da especulação e dos juros, Pequim resgatou a dimensão do dinheiro como um serviço público essencial e um instrumento soberano de coordenação econômica. Nessa perspectiva, a moeda fiduciária não é um recurso escasso que o Estado precisa “arrecadar” antes de gastar, mas um direito de emissão estratégica direcionado para mobilizar recursos reais, como força de trabalho, engenharia e matérias-primas. O contraste com o modelo ocidental é flagrante: nas economias financeirizadas, o sistema bancário privado dita o ritmo do investimento com base na maximização do retorno financeiro de curto prazo, o que frequentemente resulta em desindustrialização e bolhas imobiliárias. Já no modelo chinês, o circuito do crédito é rigidamente controlado pelo Estado, que utiliza seus bancos de desenvolvimento e bancos comerciais estatais para injetar liquidez diretamente na economia real, transformando o capital financeiro em um servo da produção e do bem-estar social.
A grande vantagem estratégica dessa abordagem reside na imunidade aos ciclos de pânico e austeridade que paralisam as nações ocidentais. Como o mecanismo de financiamento funciona por meio de um sistema bancário estatal, o governo chinês pode emitir crédito fiduciário para projetos de longuíssimo prazo sem a necessidade de validação imediata pelos mercados de capitais internacionais ou pelo rentismo local. Um exemplo prático disso é o financiamento da imensa rede de trens de alta velocidade do país. O Banco de Desenvolvimento da China e outras instituições estatais concedem empréstimos massivos a juros baixos ou subsidiados para as empresas estatais de infraestrutura. Diferente de uma parceria público-privada ocidental, onde as tarifas precisam ser elevadas para garantir o lucro dos acionistas, o foco chinês está nos efeitos multiplicadores de longo prazo. O crédito cria o ativo real, e esse ativo real gera eficiência sistêmica para toda a geografia do país, conectando províncias distantes e barateando o custo logístico de milhares de indústrias privadas e públicas.
Esse mecanismo fiduciário atua de forma ainda mais revolucionária ao estimular a construção de infraestrutura pública e o fornecimento de serviços e bens essenciais de maneira gratuita ou altamente subsidiada. Sob a lógica neoliberal, estradas, energia, saneamento e transporte devem ser privatizados ou precificados pelo mercado para “se pagarem”, o que drena a renda disponível das famílias e encarece a produção nacional. A China inverte essa dinâmica: ao financiar a infraestrutura via emissão de crédito estatal e entregá-la à sociedade a custos mínimos, o Estado promove uma transferência indireta de renda para a população. Se o trabalhador não precisa gastar uma parcela significativa do seu salário com tarifas abusivas de transporte, pedágios, energia ou internet de banda larga, o seu poder de compra real aumenta substancialmente, mesmo sem a necessidade de reajustes salariais nominais que poderiam gerar inflação de custos. Do lado das empresas, a infraestrutura barata e abundante funciona como um subsídio estrutural invisível, reduzindo dramaticamente os custos operacionais de fabricação e distribuição, o que eleva a competitividade global da indústria chinesa a patamares imbatíveis.

A ampliação conceitual operada por Pequim vai além da gestão monetária, redefinindo os próprios pilares da teoria econômica clássica ao elevar a infraestrutura pública ao status de um verdadeiro quarto fator de produção, atuando de forma sinérgica com o trabalho, o capital e a terra. Na visão chinesa, a terra em si, longe de ser um fator puramente produtivo no molde capitalista tradicional, transformou-se nos regimes financeirizados em um mecanismo primordial de extração de renda e especulação imobiliária, sufocando a produção real. Ao neutralizar essa armadilha rentista através da propriedade estatal do solo e do direcionamento centralizado do crédito, a China direciona o foco para o desenvolvimento de bens públicos estruturais. Sob essa ótica, portos, ferrovias de alta velocidade, redes de energia, saneamento e complexos de saúde pública não são tratados como mercadorias que precisam gerar lucros operacionais diretos para atrair investidores privados. Pelo contrário, o propósito deliberado do investimento estatal nesses setores é minimizar o custo reprodutivo das necessidades básicas da sociedade. Quando o Estado absorve e financia esses custos estruturais de forma centralizada, ele remove um enorme fardo financeiro tanto das costas dos trabalhadores, que não precisam comprometer seus salários com tarifas privatizadas e caras, quanto dos empregadores, que ficam desobrigados de inflacionar os salários nominais apenas para cobrir a ineficiência de serviços básicos mercantilizados.
Essa engenharia parte da premissa pragmática de que o investimento público em larga escala é intrinsecamente mais produtivo e menos oneroso para o conjunto da sociedade do que o investimento privado balizado pelo rentismo. Enquanto o capital privado exige taxas de retorno elevadas em curto prazo e a cobrança de pedágios ou mensalidades que drenam a liquidez do mercado interno, o financiamento estatal chinês calcula o retorno social e econômico difuso. Para os formuladores de políticas em Pequim, o objetivo de um canal de navegação, de uma malha ferroviária ou de um sistema de saúde universal não é, e nunca deve ser, a geração de lucro em seus balanços setoriais. O verdadeiro objetivo da infraestrutura pública é gerar as bases para uma economia privada e industrial altamente lucrativa e competitiva na sua totalidade. Ao baratear os custos de transação, logística, energia e manutenção da força de trabalho, o “quarto fator de produção” atua como um catalisador invisível que empurra as margens de lucro para o setor manufatureiro e tecnológico real, blindando o país contra as crises de demanda que assolam o Ocidente.
Toda essa engrenagem se conecta perfeitamente dentro da macroestratégia de financiamento do desenvolvimento chinês, estabelecendo um ciclo virtuoso antitético ao capitalismo financeirizado. Nas economias ocidentais, a busca por lucros puramente financeiros gera o fenômeno da captura do Estado pelo endividamento público, onde as políticas fiscais são desenhadas para garantir o pagamento de juros aos detentores de títulos da dívida, asfixiando o investimento público em saúde, educação e ciência. Na China, a soberania monetária fiduciária é exercida para garantir que o endividamento em moeda doméstica seja apenas um registro contábil da expansão das capacidades produtivas nacionais. O endividamento de entes públicos ou estatais chineses não sinaliza uma crisis de solvência, mas sim o volume de riqueza física que foi deliberadamente semeada no território. Ao manter os setores estratégicos sob controle público e blindados contra a especulação financeira internacional, a China garante que a soberania sobre o seu próprio dinheiro permaneça inalterada.
Diante dessa realidade, manifesta-se uma profunda e emblemática ironia histórica na geopolítica contemporânea. A China, rotineiramente classificada pelo vocabulário ocidental como um regime “autoritário” e centralizador, é justamente a nação que está entregando de forma massiva o que as supostas “democracias liberais” prometem em suas constituições, mas falham sistematicamentee em fornecer devido à captura de seus Estados pela austeridade fiscal e pelo lobby financeiro. Enquanto os cidadãos das economias ocidentais financeirizadas enfrentam o colapso crônico de seus serviços públicos, o endividamento estudantil e de saúde devastador, e sistemas de transporte obsoletos e caros, a sociedade chinesa testemunha a devolução contínua da riqueza social na forma de serviços gratuitos ou altamente acessíveis de altíssima qualidade. O pragmatismo fiduciário de Pequim logrou êxito em converter o poder de emissão monetária em dignidade material e bem-estar tangível para centenas de milhões de cidadãos. Ao priorizar a qualidade de vida coletiva e a robustez da economia produtiva sobre a ganância de curto prazo dos mercados acionários, o modelo chinês expõe as contradições do discurso neoliberal: a verdadeira liberdade econômica e o desenvolvimento social não emanam da desregulação dos mercados, mas sim da capacidade soberana do Estado de colocar o dinheiro e a infraestrutura a serviço do interesse público essencial.
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