A Experiência de Fengqiao (枫桥经验 – Fēngqiáo Jīngyàn), também conhecido como Modelo de Fengqiao, representa um dos conceitos mais duradouros e dinâmicos no espectro da governança social e da administração pública da República Popular da China, atravessando mais de seis décadas de transformações políticas, econômicas e tecnológicas. Em sua essência, essa metodologia estabelece uma premissa fundamental e intuitiva para a manutenção da coesão comunitária: a resolução preventiva e localizada de conflitos no exato ponto de sua origem, impedindo que pequenas divergências quotidianas escalem para litígios judiciais dispendiosos, instabilidade política ou graves distúrbios de ordem pública. Nascido no início dos anos 1960 no distrito rural de Fengqiao, localizado na cidade de Zhuji, província de Zhejiang, o modelo emergiu em um contexto no qual quadros locais e membros da comunidade foram instados a mediar divergências e reformar desvios políticos sem recorrer ao encarceramento repressivo ou à intervenção direta do aparato judicial do estado central. Quando o Presidente Mao Zedong elogiou expressamente a prática em 1963, o princípio de não transferir contradições para as instâncias superiores e de confiar na mobilização popular para conciliar disputas foi elevado à condição de doutrina nacional de gestão social.
Conforme a sociedade chinesa transicionou de uma economia predominantemente agrária para uma potência global altamente urbanizada, a Experiência de Fengqiao não permaneceu estática, mas passou por um processo contínuo de recalibragem institucional. Na era contemporânea, sob a liderança do Presidente Xi Jinping, o conceito foi reinventado sob o lema da Experiência de Fengqiao na Nova Era (新时代“枫桥经验” – Xīn shídài “Fēngqiáo Jīngyàn”), integrando a sabedoria tradicional de mediação comunitária com as capacidades do Estado de Direito socialista e da governança digital avançada. Longe de ser um conceito abstrato de filosofia política, a aplicação prática do modelo se desdobra cotidianamente em múltiplos setores da administração pública e da vida em sociedade, demonstrando versatilidade tanto no meio urbano quanto nas áreas rurais e no ambiente cibernético.
Em sua essência, essa metodologia estabelece uma premissa fundamental e intuitiva para a manutenção da coesão comunitária: a resolução preventiva e localizada de conflitos no exato ponto de sua origem, impedindo que pequenas divergências quotidianas escalem para litígios judiciais dispendiosos, instabilidade política ou graves distúrbios de ordem pública.
Um dos casos reais mais emblemáticos da aplicação prática moderna do modelo pode ser observado na gestão da microgovernança urbana por meio do sistema de gestão em grade, conhecido como grid management. Em metrópoles de grande escala como Hangzhou e Shanghai, os bairros são subdivididos em pequenas zonas geográficas delimitadas, onde agentes comunitários dedicados atuam como ponte direta entre a população local e o governo municipal (veja imagem abaixo). Na prática quotidiana, quando surgem disputas comunitárias típicas — tais como vazamentos de água entre apartamentos sobrepostos, ruído excessivo de reformas ou desentendimentos sobre a alocação de vagas de estacionamento em condomínios densos —, esses mediadores locais intercedem imediatamente. Em vez de registrar um processo judicial ou acionar a força policial, as partes são reunidas em centros comunitários de mediação de conflitos, frequentemente apoiados por advogados voluntários e idosos respeitados do bairro, garantindo acordos céleres, vinculantes e sem custos operacionais para o judiciário.

A eficácia do modelo estende-se igualmente ao campo do direito do trabalho e às novas dinâmicas da economia digital chinesa, em especial no setor de entregas por aplicativo e transporte privado urbano. Com o crescimento vertiginoso de trabalhadores autônomos e entregadores de plataformas em cidades como Shenzhen, surgiram frequentes atritos trabalhistas envolvendo remunerações, horários e acidentes de trânsito. Para evitar que a insatisfação se transformasse em greves ou ações coletivas paralalisantes, governos locais implementaram estações de mediação laboral sob o espírito de Fengqiao diretamente em centros logísticos e sindicais de base. Um caso prático registrado no setor de transporte por aplicativo envolveu a mediação presencial direta entre motoristas e representantes de grandes plataformas de tecnologia para revisar algoritmos de penalização de corridas e ajustar taxas de serviço locais. O processo foi concluído sem a necessidade de paralisações de serviços ou longas disputas judiciais, demonstrando a capacidade da mediação preventiva em absorver o impacto de novas contradições econômicas.
Além da mediação interpessoal, a vertente contemporânea do modelo incorporou profundamente a inteligência artificial, o processamento de grandes volumes de dados (big data) e as plataformas online de atendimento governamental. Um exemplo proeminente dessa modernização ocorre na província de Zhejiang, o berço original da prática, onde tribunais locais e órgãos administrativos desenvolveram o sistema de mediação digital via aplicativo móvel. Quando um cidadão enfrenta uma disputa comercial de pequeno valor ou um conflito imobiliário, ele pode registrar a reclamação em uma plataforma digital integrada. O sistema faz uma triagem automática do conflito por meio de inteligência artificial e encaminha o caso a um mediador especializado na matéria específica antes que o pedido seja autuado como petição judicial. Na prática, disputas contratuais envolvendo pequenas e médias empresas são frequentemente resolvidas em questão de dias por videoconferência, com minuta de acordo homologada digitalmente, liberando a estrutura dos tribunais de primeira instância para demandas de maior complexidade jurídica.
Nas zonas rurais, onde a modernização e o desenvolvimento infraestrutural frequentemente provocam reconfigurações no uso do solo, a Experiência de Fengqiao continua a atuar como um amortecedor social indispensável. Em diversos distritos do interior da China, a ampliação de rodovias, ferrovias de alta velocidade e parques de energia solar exige a consolidação e a transferência de direitos de uso da terra agrícola coletiva. Tais processos historicamente possuem potencial para gerar graves descontentamentos comunitários no que tange aos valores de compensação e demarcação de limites de propriedades rurais. Por meio das chamadas equipes de mediação do campo, que reúnem autoridades do partido local, técnicos agrícolas e lideranças das próprias vilas, reuniões abertas são conduzidas no próprio local da disputa para auditar mapas de terra e ajustar pagamentos de indenização de forma transparente. Casos reais demonstram que vilas que adotaram essa postura participativa conseguiram concluir grandes obras de infraestrutura sem registrar um único litígio administrativo ou protesto camponês.
Outro campo de aplicação prática extremamente relevante diz respeito à gestão de disputas de consumo e proteção do consumidor no e-commerce. Diante do volume massivo de transações comerciais realizadas em plataformas como Taobao e JD.com, litígios sobre produtos defeituosos, atrasos na entrega e reembolsos negados teriam o potencial de colapsar os órgãos de defesa do consumidor tradicionais. Adotando a filosofia de Fengqiao, órgãos de regulação de mercado estabeleceram comitês conjuntos de mediação direta com as próprias empresas de comércio eletrônico e associações de consumidores. Por meio de mecanismos de arbitragem rápida integrados às próprias plataformas, a vasta maioria das reclamações é resolvida em ambiente virtual entre o comprador e o vendedor, com mediação independente, antes que a insatisfação atinja instâncias administrativas estatais ou judiciais.
O fortalecimento da governança de base por meio da Experiência de Fengqiao também reflete uma profunda síntese entre a tradição cultural chinesa de busca pela harmonia social e as exigências operacionais de um Estado moderno. A ênfase na persuasão moral, no diálogo horizontal e na responsabilidade comunitária compartilhada busca evitar a judicialização excessiva das relações interpessoais, um fenômeno que frequentemente fragiliza os laços sociais de vizinhança e encarece o funcionamento da maquina pública. Ao capacitar os próprios cidadãos e as instituições locais para resolverem seus dilemas de convivência, a prática busca construir uma rede de estabilidade social preventiva que atua na raiz dos problemas, em vez de focar meramente no controle reativo ou na punição posterior.
Em suma, a Experiência de Fengqiao consolidou-se como uma das tecnologias sociais mais estratégicas da governança chinesa. Desde suas origens comunitárias na década de 1960 até sua completa digitalização no século XXI, o modelo provou ser flexível e adaptável às transformações profundas vividas pelo país. Seja na solução de pequenos atritos de vizinhança nos condomínios verticais das grandes metrópoles, na conciliação de novos conflitos trabalhistas da gig economy, na mediação de desapropriações rurais para infraestrutura ou na triagem digital de litígios comerciais no e-commerce, a premissa central permanece inalterada: identificar as contradições precocemente, mobilizar os atores comunitários pertinentes e resolver os conflitos na base, garantindo a estabilidade e a coesão social como fundações para o desenvolvimento nacional.
A Experiência de Fengqiao na Mediação Rual e de Terras
Um exemplo emblemático da aplicação prática da Experiência de Fengqiao na mediação de terras rurais ocorreu na província de Zhejiang durante a fase de consolidação de infraestruturas agrícolas e de energia limpa de grande porte. Na ocasião, a expansão de um complexo de usinas solares e a readequação de acessos viários exigiram a unificação e a cessão temporária do direito de uso de parcelas de terra agrícola coletiva pertencentes a dezenas de famílias camponesas locais. Historicamente, projetos dessa dimensão geravam fortes tensões devido a assimetrias na medição das áreas, divergências sobre os valores de indenização por benfeitorias e desconfiança quanto ao repasse dos recursos compensatórios.
Em vez de impor os termos de forma top-down ou aguardar que a insatisfação se convertesse em petições judiciais e protestos, a administração municipal acionou a estrutura comunitária de base inspirada em Fengqiao. Foi constituída uma equipe de mediação de campo formada por quadros do comitê de base do partido, agrimensores independentes, advogados voluntários e anciãos respeitados da própria comunidade. O grupo instalou um posto de atendimento itinerante no centro comunitário da vila, promovendo reuniões abertas nas quais os mapas cadastrais do solo e as tabelas de avaliação das propriedades foram apresentados e auditados publicamente em tempo real.
Diante de questionamentos levantados por agricultores idosos sobre a perda de cultivos permanentes e pequenos limites de demarcação de lotes, a equipe realizou vistorias presenciais ao lado dos proprietários para refazer as medições de área e reajustar o cálculo das indenizações de maneira transparente. Além de garantir que as compensações financeiras fossem pagas diretamente e sem intermediários, a mediação negociou contrapartidas comunitárias, como a priorização dos moradores locais na contratação para empregos temporários e na manutenção da nova infraestrutura. A abordagem preventiva permitiu que as obras do complexo fossem iniciadas e concluídas dentro do cronograma previsto, sem o registro de uma única petição de litígio administrativo ou manifestação de descontentamento público, demonstrando a eficácia do diálogo comunitário de base na pacificação de conflitos territoriais rurais.
A Experiência de Fengqiao sob a liderança de Xi Jinping
A importância da "Experiência de Fengqiao" no pensamento político contemporâneo da China reflete um movimento estratégico de resgate, modernização e consolidação institucional sob a liderança de Xi Jinping. A afinidade de Xi com esse modelo de governança social remonta a 2003, período em que atuava como secretário do comitê do Partido Comunista da China em Zhejiang. Ao visitar o distrito e conhecer o histórico da iniciativa nascida nos anos 1960, ele identificou o valor duradouro desse método, destacando que, apesar das transformações nas responsabilidades e no contexto nacional, a essência de Fengqiao permanecia plenamente atual. O marco decisivo dessa revitalização ocorreu em 2013, quando Xi tornou-se o primeiro líder supremo desde Mao Zedong a fazer referência explícita ao modelo, emitindo instruções importantes para marcar o cinquentenário do texto original de Mao e reafirmando a centralidade da mediação comunitária para a coesão social.
A partir dessa orientação, a Experiência de Fengqiao transicionou de uma prática tradicional para uma política pública estruturada de segurança e governança de base. Em 2019, o Ministério da Segurança Pública impulsionou a modernização das unidades policiais por meio da criação das chamadas delegacias no estilo de Fengqiao, um processo que se expandiu amplamente no país. Essa rede de delegacias tem como preceitos norteadores a lealdade irrestrita à liderança do Partido, a prestação de serviços legais à população, a aplicação imparcial da lei e a disciplina rigorosa, visando a consolidação de um ambiente social e político seguro. Essa estrutura foi fortalecida a partir de 2022 com a implementação de tribunais populares inspirados no mesmo modelo em aldeias e condados, voltados para o combate a comportamentos ilegais e à neutralização do mandonismo local.
A consolidação teórica e prática do modelo atingiu novo patamar no relatório político do 20º Congresso Nacional do PCC, em outubro de 2022, no qual Xi Jinping consagrou a Experiência de Fengqiao como pilar fundamental do sistema de governança social do país. O alinhamento executivo dessa visão foi evidenciado em novembro de 2023, durante uma conferência dedicada ao tema em que Xi se reuniu com autoridades locais responsáveis por sua aplicação prática. Na ocasião, a diretriz central desse arranjo foi resumida pelo Secretário da Comissão Central de Assuntos Políticos e Jurídicos, Chen Wenqing, ao enfatizar o objetivo de resolver as disputas na sua origem, garantindo que pequenos problemas não extrapolem a aldeia, grandes questões permaneçam na cidade e os conflitos não se espalhem, assegurando a estabilidade a partir das bases da sociedade.
Referências bibliográficas:
CHEN, Xi. Social Protest and Contentious Authoritarianism in China. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.
DUTTON, Michael. Policing and Punishment in China: From Tradition to Modernity. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.
HE, Xin. Embedded Remedies: Conflict Management in China’s Out-of-Court Dispute Resolution System. The China Quarterly, v. 238, p. 487-507, 2019.
LIFENG, Min. The Fengqiao Experience in the New Era: The Chinese Path of Social Governance. Beijing: Renmin University Press, 2021.
PALMER, Michael. Dispute Resolution in the People’s Republic of China: A System in Transition. International Journal of Law in Context, v. 3, n. 4, p. 305-325, 2007.
SUPREME PEOPLE’S COURT OF CHINA (SPC). White Paper on Chinese Courts and Internet Judiciary. Beijing: People’s Court Press, 2021.
TANG, Wenfang. Populist Authoritarianism: Chinese Political Culture and Regime Sustainability. Oxford: Oxford University Press, 2016.
XI, Jinping. The Governance of China. Beijing: Foreign Languages Press, v. 3 e 4, 2020-2022.
ZHANG, Xiaojun. The Logic of Grid Management in Urban China: Digital Governance and Social Control. Journal of Contemporary China, v. 29, n. 124, p. 556-571, 2020.