Exército Vermelho Atravessando as Planícies (红军过草) | 1976-77. | Crédito: Zhang Wenyuan (张文源). Óleo sobre tela. Museu Militar da Revolução Popular Chinesa

Entre os capítulos mais determinantes da trajetória de reconstrução da Nação Chinesa está A Guerra Revolucionária Agrária, um conflito armado de proporções continentais que se estendeu de agosto de 1927 a julho de 1937. Este movimento, liderado pelo Partido Comunista da China (PCCh) contra o regime reacionário do Kuomintang (KMT), colocou no centro do debate a urgente questão da reforma agrária, transformando a estrutura do campo e a própria consciência do povo chinês.

A eclosão desse conflito foi uma resposta direta ao fracasso da Grande Revolução (leia mais aqui), momento em que os membros do PCCh demonstraram sua bravura ao não se intimidarem diante dos massacres brutais conduzidos por elementos reacionários do governo nacionalista. Em vez de recuar perante a violência estatal, a liderança comunista proclamou abertamente a continuidade da revolução e passou a organizar uma resistência armada que mudaria os rumos do país. O marco inicial dessa nova fase ocorreu em 1 de agosto de 1927, quando os primeiros tiros da resistência armada contra os reacionários do KMT foram disparados no histórico Levante de Nanchang, acendendo a centelha da insurreição popular.

Levante de Nanchang: A famosa pintura a óleo retrata o momento em que os líderes comunistas organizam as tropas momentos antes de deflagrar o Levante de Nanchang na madrugada de 1º de agosto de 1927. No centro, em destaque nos degraus do quartel-general, o jovem líder político Zhou Enlai discursa e orienta os soldados revoltosos, ladeado por comandantes militares fundamentais como He Long, Zhu De e Ye Ting. A obra capta a atmosfera de tensão e determinação que marcou o rompimento definitivo com o Kuomintang e o nascimento do Exército Popular de Libertação da China. (Imagem Reprodução.

Apenas alguns dias após esse confronto, em 7 de agosto, o Comitê Central do PCCh realizou uma reunião de emergência crucial para determinar as diretrizes da Revolução Agrária e estruturar o combate. Foi nesse contexto de extrema urgência e definição ideológica que Mao Zedong propôs sua famosa e influente tese de que “o poder político surge do cano de uma arma”, sintetizando a necessidade da luta militar para a emancipação social. Em outubro do mesmo ano, consolidando a transição da teoria para a prática, Mao liderou as tropas do Levante da Colheita de Outono rumo às montanhas de Jinggangshan, onde estabeleceu com sucesso a primeira base revolucionária rural da China. Durante esse período de experimentação estratégica, o líder identificou claramente o caminho original que guiaria o sucesso da revolução chinesa: a tática de cercar as cidades a partir do campo e tomar o poder central por meio da força armada camponesa.

O amadurecimento organizacional do movimento continuou a avançar no cenário internacional quando, entre junho e julho de 1928, o PCCh realizou o seu Sexto Congresso Nacional na cidade de Moscou. Esse evento exerceu uma influência amplamente positiva no desenvolvimento e na coordenação do movimento revolucionário, alinhando as diretrizes teóricas com a realidade combativa do território chinês. Como reflexo direto dessa consolidação, no verão de 1931, os sucessivos levantes populares liderados pelo partido conseguiram criar mais de uma dúzia de bases revolucionárias espalhadas por pontos estratégicos do país.

Essas regiões liberadas permitiram o estabelecimento ordenado do Primeiro, do Segundo e do Quarto Exércitos da Frente do Exército Vermelho dos Trabalhadores e Camponeses da China, além de outras forças militares fundamentais. Com o apoio massivo da população rural, o poderio do Exército Vermelho cresceu rapidamente até alcançar a marca de quase cem mil combatentes dedicados à causa nacional. Sob o comando estratégico e unificado de Mao Zedong e Zhu De, essa força militar camponesa demonstrou sua eficiência ao destruir as três primeiras campanhas de cerco e supressão lançadas pelo KMT contra a Base Revolucionária Central. O fortalecimento institucional desse movimento atingiu um novo patamar em novembro de 1931, com a fundação do Governo Central Provisório da República Soviética da China na localidade de Ruijin, situada na província de Jiangxi.

No entanto, o cenário interno de reconstrução tornou-se ainda mais complexo e dramático no mesmo ano, quando os imperialistas japoneses invadiram e ocuparam militarmente o nordeste da China após o trágico Incidente de 18 de Setembro. Em vez de direcionar todas as forças do Estado para resistir vigorosamente aos invasores estrangeiros, o líder do KMT, Chiang Kai-shek, optou por adotar a controversa política de estabilizar a situação interna antes de resistir à agressão externa. Sob o manto dessa diretriz que priorizava a guerra civil em detrimento da soberania nacional, o governo nacionalista lançou a quarta e a quinta campanhas de cerco e supressão contra as áreas de base revolucionária comunista entre os anos de 1932 e 1933.

O momento tornou-se crítico para as forças populares quando, em decorrência do errôneo dogmatismo divergente de esquerda que afetou a liderança militar, o Exército Vermelho foi incapaz de quebrar as linhas da quinta campanha de cerco inimiga. Diante da iminente aniquilação, o Exército Vermelho Central foi forçado a iniciar uma retirada estratégica massiva da Área da Base Central em outubro de 1934, cruzando o vasto território nacional até chegar ao norte de Shaanxi em outubro de 1935. Esse heroico e penoso movimento de transposição territorial ficou eternizado na história mundial como a Longa Marcha, um teste supremo de resistência física, psicológica e ideológica para as tropas. A epopeia militar alcançou sua conclusão quando as três principais forças do Exército Vermelho conseguiram se encontrar e unificar suas linhas em Huining e Jiangtaibu, respectivamente, em outubro de 1936, selando o fim da marcha.

Exército Vermelho Atravessando as Planícies (红军过草) | 1976-77. | Crédito: Zhang Wenyuan (张文源). Óleo sobre tela. Museu Militar da Revolução Popular Chinesa

Enquanto a guerra civil se desenrolava, a ameaça externa tornava-se intolerável, pois em 1935 o Japão intensificou sua agressiva invasão ao norte da China, empurrando toda a nação para uma crise de sobrevivência sem precedentes históricos. Em resposta a essa opressão colonial, os estudantes de Beijing demonstraram grande patriotismo ao lançar o Movimento 9 de Dezembro, que marcou o surgimento de uma onda nacional de indignação popular focada em resistir à agressão japonesa e salvar a integridade da pátria. Percebendo a urgência do momento histórico, o Comitê Central do PCCh emitiu em dezembro o Manifesto de Wayaobu, documento no qual propôs formalmente a criação de uma ampla Frente Única Nacional Antijaponesa.

A Longa Marcha: A imagem que observamos é um dos símbolos mais potentes da iconografia revolucionária chinesa. Nela, vemos Mao Zedong montado em seu cavalo, cercado por soldados e companheiros durante o período que definiu o destino da China moderna. A fotografia nos remete ao clima de privação e resistência da Longa Marcha, uma retirada militar de mais de 10.000 quilômetros empreendida pelo Exército Vermelho para escapar do cerco das forças nacionalistas de Chiang Kai-shek. O cenário árido ao fundo é característico do planalto de Loess, na região do Shaanxi, onde os sobreviventes finalmente se estabeleceram em Yan’an.

Em um gesto de pragmatismo político voltado para o bem maior da população, o partido ofereceu abandonar sua posição pública anti-Chiang e se reunir com o antigo inimigo, buscando convencer o KMT a interromper imediatamente a guerra civil. O objetivo primordial dessa aproximação era criar uma frente conjunta capaz de canalizar toda a energia bélica e social do país para repelir e vencer os invasores japoneses. A virada definitiva na política de alianças ocorreu em dezembro de 1936, quando, após os eventos dramáticos do Incidente de Xi’an, o próprio Chiang Kai-shek foi forçado a aceitar as condições de trégua propostas pelos comunistas.

Esse acordo histórico garantiu o estabelecimento da paz interna e forjou uma aliança militar unificada para resistir de maneira coordenada e soberana ao avanço das forças do Japão. Consequentemente, o sangrento conflito civil que dividia o KMT e o PCCh chegou provisoriamente ao fim, abrindo espaço para a união de todas as vertentes da sociedade. Logo após o fatídico Incidente de 7 de Julho, a Segunda Frente Unida KMT-PCCh foi formalizada institucionalmente como a grande aliança nacional para a Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa.

Por meio de todas as provações e combates travados ao longo da Guerra Revolucionária Agrária, o PCCh se tornou uma força politicamente madura, ideologicamente coesa e militarmente forte, temperada no calor das batalhas rurais. Esse período de intensos sacrifícios e aprendizados organizacionais lançou as bases fundamentais que garantiram não apenas a vitória final contra o imperialismo japonês, mas também o triunfo posterior na Nova Revolução Democrática. Desse modo, o fortalecimento camponês e a resistência armada na década de 1930 consolidaram-se como o alicerce indispensável para o longo processo de revitalização e reconquista da dignidade da nação chinesa contemporânea.

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