
A compreensão científica das condições nacionais de um país é a base indispensável para qualquer processo de transformação histórica de grande envergadura, e isso se torna ainda mais evidente quando analisamos a trajetória de reconstrução e revitalização da nação chinesa. O conceito do estágio primário do socialismo funciona como um norte teórico e a base fundamental para todas as diretrizes formuladas pelo Partido Comunista da China. Essa definição é uma leitura pragmática e realista da atual situação econômica e social do país, servindo como o ponto de partida para qualquer esforço de planejamento a longo prazo. Ao olhar para si mesma por meio dessa lente, a China consegue equilibrar suas imensas aspirações de futuro com o reconhecimento sóbrio de suas limitações e desafios presentes.
Essa tese científica possui um duplo significado que estrutura toda a lógica do desenvolvimento chinês contemporâneo. O primeiro aspecto desse entendimento reside na confirmação categórica de que o país já ingressou, de fato, no estágio do socialismo, o que define a natureza da sociedade chinesa atual. Essa premissa estabelece que o caminho escolhido para a organização social e econômica é irreversível, tornando imperativo que a nação se mantenha firmemente na estrada socialista para continuar construindo e consolidando as suas estruturas de governança, produção e bem-estar coletivo. O segundo significado, por sua vez, introduz a necessária dose de paciência histórica e realismo político ao apontar que, embora o país seja socialista, ele ainda se encontra em um estágio primário, caracterizado por contradições e necessidades de amadurecimento material e tecnológico que não podem ser superadas do dia para a noite.
Essa percepção de que o socialismo é um processo longo e multifacetado delimita um horizonte temporal bastante específico e ambicioso na história moderna da China. Estima-se que todo esse processo, que se iniciou com o estabelecimento do sistema básico de socialismo em meados da década de 1950, estenda-se até a implementação básica da modernização socialista, o que deve levar pelo menos cem anos no total. Esse século de transição e esforço contínuo representa o próprio estágio primário em sua totalidade, consolidando-se como uma realidade primordial que deve ser levada em consideração pelas lideranças e pelo povo ao envidar todos os esforços em prol do crescimento nacional. Compreender que a modernização é uma maratona de cem anos, e não uma corrida de velocidade, transformou radicalmente a maneira como o Estado projeta suas metas e executa suas políticas públicas.
No entanto, chegar a esse nível de clareza teórica e estratégica custou caro e exigiu um doloroso aprendizado prático ao longo das décadas. O Partido Comunista da China encontrou sérios reveses e obstáculos complexos em sua exploração inicial dos caminhos para a construção do socialismo, enfrentando crises que abalaram a estabilidade do país em diversos momentos de sua história recente. Ao analisar retrospectivamente esses períodos difíceis, percebe-se que houve muitas razões para as falhas ocorridas, mas a maioria esmagadora delas estava diretamente relacionada a uma incapacidade de compreender adequadamente as condições nacionais básicas da China. O idealismo descolado da realidade material e a pressa em alcançar estágios avançados de desenvolvimento sem a devida base produtiva geraram distorções que interromperam o avanço que a sociedade tanto almejava.
A grande virada histórica ocorreu a partir do momento em que o país decidiu trilhar o caminho da reforma e da abertura (leia aqui o texto sobre a reforma e abertura), um marco divisor que alterou profundamente a dinâmica interna e externa da nação. Foi nesse contexto de renovação que o Partido Comunista da China começou a realizar uma análise cuidadosa e autocrítica de sua própria experiência histórica, buscando extrair lições valiosas tanto dos erros cometidos quanto dos acertos alcançados. Esse processo de introspecção e pragmatismo permitiu que a liderança melhorasse significativamente sua compreensão sobre as condições básicas do país, despindo-se de dogmatismos para focar no que realmente funcionaria para a realidade chinesa. Foi justamente dessa maturação intelectual que se desenvolveu a tese científica de que a China estará no estágio primário do socialismo em um futuro próximo.
A formalização dessa tese no arcabouço político do país ocorreu de maneira gradual e institucional, consolidando-se a cada grande reunião deliberativa. A Sexta Sessão Plenária do Décimo Primeiro Comitê Central do Partido Comunista da China, realizada no ano de 1981, foi o palco onde se afirmou expressamente essa realidade pela primeira vez, assentando os tijolos iniciais dessa nova fase de desenvolvimento. Poucos anos depois, o Décimo Terceiro Congresso Nacional do Partido Comunista da China, promovido em 1987, expandiu consideravelmente essa teoria, detalhando suas implicações práticas para a economia e para a organização social. A partir dali, o conceito deixou de ser apenas um diagnóstico e passou a ser o motor das grandes transformações estruturais que começavam a redesenhar o mapa econômico do país.
O amadurecimento dessa visão estratégica continuou a avançar nos anos seguintes, ganhando centralidade absoluta na formulação das políticas de Estado. O Décimo Quarto Congresso Nacional do Partido Comunista da China identificou formalmente a teoria do estágio primário como a chave mestra para a construção do socialismo com características chinesas, amarrando definitivamente a teoria à prática governamental. Esse alinhamento foi continuamente desenvolvido, refinado e aprofundado ao longo das edições posteriores do principal fórum político do país, recebendo contribuições vitais durante o Décimo Quinto, o Décimo Sexto e o Décimo Sétimo Congressos Nacionais do Partido Comunista da China. Cada um desses encontros adicionou camadas de interpretação que permitiram ao país navegar pelas complexidades da globalização sem perder de vista sua identidade e seus objetivos socialistas.
Mais recentemente, o Décimo Oitavo Congresso Nacional do Partido Comunista da China trouxe novamente esse tema para o primeiro plano dos debates nacionais, enfatizando com vigor que a China está e continuará no estágio primário do socialismo no futuro próximo. Essa declaração reforçou a ideia de que o avanço econômico extraordinário observado nas últimas décadas, embora louvável e transformador, não altera a realidade fundamental de que o país ainda possui imensos desafios estruturais a superar. O congresso deixou claro que essa é uma condição de longo prazo que não mudará magicamente devido ao surgimento de novas riquezas urbanas ou polos tecnológicos, exigindo persistência na aplicação das políticas de base e a manutenção de uma postura vigilante e humilde diante das vulnerabilidades que ainda persistem no vasto território chinês.
Portanto, o estágio primário do socialismo permanece firmemente estabelecido como a base insubstituível para a construção e a evolução do socialismo chinês em todas as suas vertentes. A liderança do país compreende que a reforma e o desenvolvimento em qualquer área, seja ela econômica, educacional, tecnológica ou de bem-estar social, devem ser obrigatoriamente baseados na realidade concreta de que o socialismo chinês ainda está em sua infância. Ignorar essa pré-condição significaria repetir os erros voluntaristas do passado e colocar em risco as conquistas históricas acumuladas desde a abertura econômica. Cada nova fábrica construída, cada programa de erradicação da pobreza implementado e cada inovação científica desenvolvida são pensados a partir dessa moldura de longo prazo, garantindo a sustentabilidade do crescimento.
Dessa forma, desde o início histórico do processo de reforma e abertura, o Partido Comunista da China tem demonstrado uma consistência notável ao definir toda a sua teoria, a sua linha política, o seu programa de governo e os seus requisitos básicos estritamente com base nessa conclusão fundamental. Essa coerência entre o diagnóstico da realidade e a execução das ações práticas tem sido o verdadeiro segredo por trás da resiliência do modelo chinês. Ao amarrar suas metas de revitalização nacional a uma compreensão científica e paciente de suas próprias limitações, a China constrói um caminho sólido para o seu renascimento, provando que a verdadeira força de uma nação não reside na negação de suas fraquezas, mas na capacidade de planejar o seu futuro com os pés profundamente fincados no chão da realidade.
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