
O processo de reconstrução e revitalização da nação chinesa teve um dos seus capítulos mais marcantes no final da década de 1970, quando o país redirecionou seus rumos econômicos a partir do campo. Para entender melhor o significado dessa transformação, precisamos relembrar o cenário que a antecedeu, marcado pela instituição das comunas populares nas áreas rurais em 1958. Naquele período, as cooperativas de produção agrícola sofreram uma transição drástica, deixando de ser propriedade coletiva para se tornarem propriedade comunal, sob um modelo centralizado que acabou por revelar profundos defeitos estruturais ao longo dos anos. A gestão excessivamente concentrada, a configuração rígida e única dos negócios rurais e um sistema de distribuição fixo baseado em rendimentos estritamente iguais geraram um nivelamento que sufocava a iniciativa individual. Esse desenho institucional teve um efeito prejudicial severo sobre a motivação dos agricultores, que não viam uma correlação direta entre o esforço empenhado no cultivo e a recompensa recebida. Como consequência direta desse engessamento produtivo, a pobreza e o atraso tornaram-se marcas persistentes da economia rural chinesa, limitando o potencial de desenvolvimento do país.
A grande virada histórica começou a desenhar-se após a realização da Terceira Sessão Plenária do Décimo Primeiro Comitê Central do Partido Comunista da China, momento em que as bases para a modernização começaram a ser lançadas. Movidos pela necessidade urgente de superar a escassez e a estagnação, um pequeno grupo de agricultores chineses tomou a iniciativa de adotar o que viria a ser conhecido como o sistema de responsabilidade pela produção familiar. Por meio dessa modalidade inovadora, o trabalho prático e a entrega final da produção passavam a ser firmados por meio de contratos diretamente com as famílias, devolvendo a elas o protagonismo sobre a terra. Em mil novecentos e oitenta, o líder Deng Xiaoping reconheceu de forma integral o valor dessa transformação, chancelando-a politicamente e promovendo a reforma rural com foco absoluto no sistema de responsabilidade familiar mediante contrato. Esse respaldo oficial ganhou força institucional contínua entre os anos de mil novecentos e oitenta e dois e mil novecentos e oitenta e seis, período em que o Comitê Central do Partido Comunista da China emitiu anualmente o Documento Central Número Um. Esse documento fornecia a orientação ativa e o suporte legal necessários para a implementação do sistema, fazendo com que ele se espalhasse com extrema rapidez por todo o território nacional e desencadeasse mudanças profundas e duradouras na vasta sociedade rural chinesa.
A essência e o sucesso desse novo arranjo residiam em uma distinção jurídica e operacional crucial: a separação clara entre a propriedade da terra e o direito de sua gestão. Enquanto a propriedade da terra permanecia firmemente sob o domínio do coletivo, o direito de gerenciar o cultivo e planejar a produção era transferido diretamente para as mãos das famílias agricultoras. Essa flexibilidade permitiu que os camponeses tomassem suas próprias decisões no âmbito doméstico, tornando-se simultaneamente responsáveis pelos lucros obtidos e pelas perdas eventualmente sofridas. O impacto psicológico e econômico dessa mudança foi imediato, mostrando-se extremamente motivador para os trabalhadores do campo, que agora colhiam os frutos diretos de sua dedicação. A produção agrícola do país experimentou um salto expressivo e as reformas rurais avançaram a passos largos, consolidando a estabilidade alimentar e gerando excedentes que impulsionaram outros setores da economia nacional. Conforme o processo de reforma rural avançava e se consolidava, o próprio sistema de responsabilidade familiar passava por aperfeiçoamentos constantes para garantir maior segurança jurídica aos produtores. Isso se refletiu no aumento progressivo do tempo de vigência dos contratos de uso da terra, que inicialmente era de apenas três anos, passou posteriormente para quinze anos e, mais tarde, foi expandido para trinta anos de duração.
A evolução desse modelo seguiu uma linha de continuidade e aprimoramento estratégico nas décadas seguintes, alcançando novos patamares a partir do 18° Congresso Nacional do Partido Comunista da China. Sob a direção central do Partido, tendo Xi Jinping em seu núcleo, a liderança continuou a praticar e defender a propriedade coletiva de terras rurais contratadas, preservando o direito à gestão contratada por parte dos agricultores. No entanto, para responder às demandas de uma China moderna e tecnologicamente avançada, a reforma deu um passo adiante ao refinar a estrutura de direitos agrários. Por meio de novas diretrizes, os direitos relacionados à terra foram divididos de forma ainda mais precisa em três esferas distintas: a propriedade da terra, o direito contratual e o direito de gestão propriamente dito. Essa tripartição representou outra grande inovação dentro do espírito do sistema de responsabilidade familiar mediante contrato, estabelecendo um novo ponto de partida para a reforma da propriedade rural da terra na atualidade e para as próximas décadas. Posteriormente, o 19° Congresso Nacional do Partido Comunista da China confirmou a perenidade dessa política ao declarar que o sistema de contrato deve durar por um futuro previsível. Para assegurar a estabilidade e a confiança dos produtores no longo prazo, determinou-se a extensão do período dos contratos por mais 30 anos assim que os prazos vigentes começarem a expirar.
Toda essa engrenagem de modernização, que hoje sustenta a revitalização da nação, teve origem em um ato de imensa coragem e desespero contra a miséria no final do ano de 1968. Mais precisamente no dia 24 de novembro daquele ano, dezoito famílias da aldeia de Xiaogang, localizada no condado de Fengyang, dentro da província de Anhui, uniram-se em segredo com o firme propósito de evitar a fome crônica que os assolava. Em um pedaço de papel (ver imagem abaixo) que desafiava as regras rígidas da época, esses camponeses colocaram suas impressões digitais vermelhas em um contrato privado que tinha como objetivo fixar cotas de produção agrícola para cada família individual. Esse gesto histórico e clandestino marcou o nascimento real do sistema de responsabilidade pela produção familiar, demonstrando na prática que a descentralização e a autonomia familiar geravam resultados infinitamente superiores ao modelo comunal anterior. O sucesso produtivo imediato daquela pequena comunidade chamou a atenção das lideranças reformistas, servindo como o laboratório prático que inspirou as leis nacionais subsequentes. A partir daquela iniciativa local, a China lançou oficialmente o seu amplo e vitorioso programa de reforma econômica global, e a pacata Aldeia de Xiaogang gravou definitivamente o seu nome na história contemporânea como o berço legítimo do sistema de responsabilidade familiar mediante contrato e o ponto de partida de toda a reforma rural que reconstruiu a base social do país.

A obra capta a tensão e a coragem dos camponeses ao carimbarem suas impressões digitais vermelhas no documento que descentralizou a produção agrícola. Esse ato de bravura local deu origem ao sistema de responsabilidade familiar mediante contrato, servindo como o laboratório prático que inspirou as lideranças reformistas e desencadeou a grande virada econômica e a modernização da nação chinesa a partir do campo.
Essa escultura ilustra os dezoito camponeses assinando o pacto secreto está localizada no Museu Comemorativo do Grande Contrato (Da Baogan Memorial Hall / 大包干纪念馆), situado na própria Aldeia de Xiaogang, no condado de Fengyang, província de Anhui, na China.
O museu funciona como um centro de memória histórica dedicado a preservar o registro daquela noite de 1978, abrigando tanto essa escultura em tamanho real quanto réplicas e documentos que marcam o nascimento do sistema de responsabilidade familiar.
Replicas menores ou versões dessa mesma representação artística também já foram exibidas temporariamente em grandes mostras temáticas no Museu Nacional da China, em Pequim, durante celebrações de marcos da Reforma e Abertura.

Este pedaço de papel amarelado foi preservado e está em exibição no Museu Nacional da China, em Pequim, reconhecido formalmente como o marco zero da abertura econômica e da revitalização agrícola do país.
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