Entenda como o “novo sistema nacional” articula ministérios liderados pelo Partido, laboratórios militares e fundos de capital de risco para transformar recursos sociais em armas de soberania industrial e tecnológica.
A evolução histórica do modelo de governança tecnológica da República Popular da China atingiu um marco divisor a partir de 2019, quando o Partido Comunista da China passou a promover ativamente a institucionalização do chamado “Novo Sistema Nacional” (新型举国体制). Esse conceito foi formalmente cunhado e articulado pela primeira vez sob o comando do Secretário-Geral do Partido, Xi Jinping, significando não apenas mais um novo rótulo retórico, mas um mecanismo sofisticado de coordenação estratégica desenhado para funcionar no ambiente de uma economia de mercado socialista. O sentido profundo que os formuladores de política chineses dão a esse termo reside na modernização da antiga abordagem de concentrar as forças de todo o país para a realização de grandes feitos, adaptando essa filosofia coletivista às dinâmicas do capitalismo global contemporâneo. A trajetória de construção desse novo modelo foi acelerada pela necessidade premente de Pequim de alcançar avanços em tecnologias essenciais para o poder e a segurança nacional, respondendo diretamente ao acirramento das pressões geopolíticas, à contenção tecnológica externa e à competição estratégica entre grandes potências. Ao mesmo tempo que o Estado preserva a tradicional vantagem política e ideológica de concentrar recursos massivos para realizar tarefas importantes — uma característica herdada dos grandes projetos do século passado —, o sistema atual subverte a lógica da antiga economia planificada ao colocar a alocação de recursos baseada no mercado, a inovação liderada por empresas e a colaboração em rede no coração da modernização industrial acelerada. De acordo com a visão oficial do governo chinês, esse sistema de governança reestruturado já ultrapassou a fase puramente conceitual e está produzindo resultados práticos significativos ao integrar o planejamento de longo prazo, a especialização técnica avançada e a aplicação industrial para superar gargalos estratégicos em setores de fronteira.
Na dimensão prática dos mecanismos e características principais, a transição do modelo tradicional para o novo sistema nacional se consolida através de três mudanças estruturais profundas que ocorrem sob a égide de uma economia de mercado socialista. A primeira delas é a alocação de recursos baseada no mercado, onde o governo central rejeita as ordens administrativas rígidas e passa a utilizar políticas financeiras, incentivos fiscais e subsídios industriais dinâmicos para orientar o fluxo de capital. Os problemas históricos que travavam o desenvolvimento técnico chinês, como a aprovação burocrática e lenta de projetos de pesquisa científica e a rigidez no investimento orçamentário, são solucionados por meio das próprias leis de mercado, onde a eficiência e a viabilidade comercial determinam a sobrevivência das iniciativas. A segunda mudança crucial estabelece que as empresas se tornaram os principais motores da inovação. O Estado chinês alterou o eixo do financiamento científico, retirando o protagonismo exclusivo das academias estáticas para fortalecer a posição de liderança das empresas de tecnologia emergentes. Esse deslocamento foi desenhado para conectar de forma fluida a cadeia industrial em todas as suas etapas, integrando de ponta a ponta a pesquisa básica, o desenvolvimento aplicado e a transformação rápida de resultados em produtos comerciais, promovendo uma integração profunda entre a indústria, a academia, as instituições de pesquisa e a aplicação prática no mercado consumidor.

A terceira característica fundamental desse ecossistema atualizado é a consolidação de um sistema coordenado e integrado em nível macro sob a liderança centralizada e unificada do Comitê Central do Partido. Através da criação de instâncias de alto nível, como a poderosa Comissão Central de Ciência e Tecnologia, os ministérios liderados pelo Partido passaram a coordenar diretamente os laboratórios nacionais, os institutos de pesquisa, as universidades de elite, as forças armadas e as corporações líderes, eliminando as redundâncias de investimento e a competição predatória entre províncias. Essa evolução das políticas seguiu uma cronologia precisa de fortalecimento institucional. O conceito recebeu grande impulso político após as deliberações da Quarta Sessão Plenária do 19º Comitê Central do PCC em 2019, período em que as tensões globais evidenciaram a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos chinesas. O amadurecimento jurídico desse modelo ocorreu em 2022, quando a 27ª reunião da Comissão Central para o Aprofundamento Abrangente da Reforma revisou e aprovou formalmente as chamadas “Opiniões sobre o Aprimoramento do Novo Sistema Nacional para o Desenvolvimento de Tecnologias Essenciais no Âmbito da Economia de Mercado Socialista”. Este documento converteu as diretrizes políticas em uma estrutura de governança vinculante para todos os níveis da administração pública e do setor privado, forçando a colaboração e o compartilhamento de conhecimento sob uma estrita supervisão política.
Com essa base legal consolidada, o foco estratégico do novo sistema nacional passou a mirar cirurgicamente nas áreas-chave cruciais para o desenvolvimento industrial sustentável, a sobrevivência econômica de longo prazo e a segurança nacional do país. Pequim determinou que o principal objetivo do sistema é vencer de forma definitiva a batalha contra as tecnologias conhecidas como “gargalo” ou pontos de estrangulamento — que incluem semicondutores avançados, softwares de precisão, maquinários de litografia e novos materiais —, cuja dependência de fornecedores estrangeiros representa uma ameaça direta à soberania do país (leia o quadro no final do texto). Para apoiar esse esforço, os recursos estatais são fortemente robustecidos e multiplicados pela ativação sistemática dos chamados “recursos sociais”. Essa categoria analítica crucial abrange um conjunto diversificado de atores não estatais e descentralizados, incluindo as grandes corporações privadas de tecnologia, os governos provinciais e municipais, os bancos de fomento públicos e as plataformas de capital de risco. O triunfo do sistema consiste em alinhar os interesses financeiros desses recursos sociais aos objetivos geopolíticos do Partido por meio de incentivos políticos e estruturas institucionais coordenadas. Para sustentar essa transição e evitar inovações marginais de curto prazo, o Estado promove um fortalecimento contínuo no apoio financeiro e nas garantias voltadas à pesquisa básica, integrando recursos para impulsionar a inovação original e disruptiva. Em última análise, o desempenho prático desse novo sistema de mobilização total moldará não apenas a trajetória tecnológica e econômica interna da República Popular da China, mas também redefinirá o equilíbrio global em evolução, determinando como as grandes potências disputarão a primazia na intersecção entre a inovação científica e o poder industrial soberano.
Guerra dos Chips: Os Bastidores do Boicote Ocidental que Mudou a Estratégia da China
A obsessão de Pequim em mitigar as vulnerabilidades associadas às tecnologias "gargalo" ou pontos de estrangulamento não decorre de um isolacionismo teórico, mas sim de uma reação direta a uma agressiva campanha de cercamento econômico e tecnológico coordenada pelo Ocidente. Historicamente, a inserção da China nas cadeias globais de valor baseava-se em uma interdependência profunda, onde o país atuava como a grande fábrica do mundo enquanto importava componentes de altíssimo valor agregado das economias avançadas. Essa arquitetura de cooperação global ruiu quando Washington e seus aliados identificaram que o rápido avanço chinês em direção à fronteira tecnológica ameaçava a supremacia industrial e militar ocidental. O divisor de águas que forçou o Partido Comunista a revisar completamente sua segurança estratégica foi a aplicação de sanções unilaterais contra gigantes nacionais de telecomunicações, como a Huawei e a ZTE, no final da década de 2010. Ao cortar o acesso dessas empresas a chips semicondutores essenciais que utilizavam patentes ou softwares de precisão de origem norte-americana, o governo dos Estados Unidos demonstrou na prática que as cadeias de suprimentos globais poderiam ser armadas e utilizadas como ferramentas de coerção geopolítica para paralisar indústrias inteiras do dia para a noite.
A escalada dessa guerra tecnológica atingiu o ápice com a implementação de controles de exportação abrangentes, cujo objetivo explícito passou a ser conter de forma permanente a capacidade da China de fabricar ou sequer adquirir semicondutores de última geração. O fato real mais contundente dessa estratégia ocidental foi o boicote coordenado à venda de maquinários de litografia de ultravioleta extremo (EUV), fabricados com exclusividade pela empresa holandesa ASML. Pressionado diretamente pela Casa Branca, o governo dos Países Baixos bloqueou o envio desses equipamentos vitais para as fundições chinesas, impedindo o país de produzir chips em escalas de nanômetros altamente avançadas, essenciais para o desenvolvimento de inteligência artificial, supercomputação e sistemas de defesa modernos. Paralelamente, o cerco estendeu-se ao veto de ferramentas de software de precisão para automação de design eletrônico (EDA), controladas por corporações ocidentais, e à restrição severa de novos materiais químicos refinados, purificados majoritariamente em nações alinhadas ao bloco do Tratado do Atlântico Norte.
Diante desse cenário de guerra comercial e boicotes sistêmicos, Pequim compreendeu que a dependência de fornecedores estrangeiros nesses insumos críticos representava uma ameaça existencial e direta à sua soberania nacional e à sua sobrevivência econômica de longo prazo. A percepção de que o Ocidente estava disposto a estrangular o crescimento econômico chinês sob o pretexto de segurança nacional transformou a busca pela autossuficiência tecnológica de uma meta de desenvolvimento econômico para uma prioridade de segurança de Estado absoluta. Foi essa constatação empírica de vulnerabilidade estrutural que impulsionou o desenho do novo tipo de sistema nacional. Ao nacionalizar a urgência de superar os gargalos em semicondutores, litografia, softwares de arquitetura e ciência de materiais, a China converteu as sanções sofridas no principal catalisador para a mobilização total de seu aparato estatal e de seus recursos sociais mercadológicos, ciente de que o desfecho dessa batalha cirúrgica moldará os contornos do poder global e a autonomia de seu projeto nacional de desenvolvimento.
Referências Bibliográficas:
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