O Fórum de Pensadores da Universidade de Fudan de 2026 (2026年复旦大学思想家论坛 – 2026 nián Fùdàn Dàxué Sīxiǎngjiā Lúntán), realizado entre 15 e 16 de outubro no Edifício Lü Zhihe da Universidade de Fudan (复旦大学 – Fùdàn Dàxué), representou um importante capítulo no debate acadêmico chinês ao assinalar os dez anos do histórico Simpósio Nacional de Filosofia e Ciências Sociais, presidio pelo Secretário-Geral Xi Jinping. Organizado pelo Instituto da China de Fudan em parceria com periódicos e entidades de prestígio no campo da Ciência Social chinesa — como Estudos Orientais, Guancha.cn, Dilang Culture e o Instituto de Pesquisa de Estratégia de Desenvolvimento Chunqiu —, o evento reuniu acadêmicos, diplomatas, comunicadores e especialistas internacionais para discutir a transição de um debate normativo sobre o sistema de conhecimento da China para a sua aplicação prática e sistemática na realidade contemporânea.
A iniciativa responde à necessidade histórica da sociedade chinesa e dos povos do Sul Global de estruturar um arcabouço conceitual autônomo, libertando a produção do conhecimento das matrizes analíticas eurocêntricas e liberais que historicamente monopolizaram as ciências humanas. Durante a sessão de abertura, Lu Liu, diretora do Departamento de Comunicação do Partido Comunista Chinês em Fudan, enfatizou que um sistema de conhecimento autônomo não se constrói em abstrações teóricas, mas na investigação rigorosa e empírica da própria prática de desenvolvimento do país. O decano do Instituto da China, professor Zhang Weiwei, reforçou a urgência de romper com a dependência de trajetórias analíticas ocidentais, argumentando que a ciência social chinesa precisa responder diretamente às transformações provocadas pela modernização de estilo chinês para exercer maior influência na governança global.
A iniciativa responde à necessidade histórica da sociedade chinesa e dos povos do Sul Global de estruturar um arcabouço conceitual autônomo, libertando a produção do conhecimento das matrizes analíticas eurocêntricas e liberais que historicamente monopolizaram as ciências humanas.
Central para essa transformação teórica é a superação de categorias políticas tradicionais do Ocidente. Em sua palestra principal, Zhang Weiwei detalhou como a teoria do Estado Civilizacional oferece uma mudança de paradigma em relação ao conceito estrito de Estado-nação. O arcabouço proposto substitui o binômio ocidental “democracia versus autocracia” pelo critério pragmático de “boa governança versus má governança” e redefine o papel das organizações políticas, migrando da noção de “partidos de interesses parciais” para a de “partidos de interesse geral”. Essa mudança conceitual busca fornecer sustentação teórica e soberania cognitiva ao projeto de rejuvenescimento da nação chinesa em meio às transformações geopolíticas globais.
No plano internacional, o evento deu destaque central ao papel do Sul Global na formulação de uma nova ordem multipolar. O diretor do Centro de Políticas Públicas e Estudos Africanos da Universidade de Joanesburgo, Busani Ngcaweni, defendeu a emergência de um novo “Consenso do Sul Global” focado na soberania, no desenvolvimento humano e na solidariedade. Ngcaweni destacou que a resiliência de plataformas multilaterais como o BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) deriva do respeito mútuo e da capacidade dos países emergentes de pensarem suas próprias trajetórias de desenvolvimento sem imposições ou condicionantes externas.
O fórum dividiu suas sessões de trabalho em quatro eixos estratégicos que cobriram da economia política à competição tecnológica. Na Unidade 1, dedicada à política e economia, o professor Su Changhe (Fudan) e o pesquisador Yan Yilong (Tsinghua) debateram a integração de conceitos teóricos chineses aos currículos e debates internacionais, destacando a combinação entre o planejamento estatal de longo prazo dos Planos Quinquenais e a dinâmica de mercado. Paralelamente, pesquisadores como Jiang Yu (Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho de Estado) defenderam uma economia política voltada à satisfação das necessidades reais da população, articulando teoria marxista, economia real e inovação tecnológica.

As discussões avançaram sobre a reconstrução da filosofia e o papel das novas tecnologias na governança. Na Unidade 2, painelistas como os professores Li Lei, Bai Gang e Wu Xinwen abordaram a gênese da civilização chinesa sob o prisma arqueológico e a necessidade de um diálogo igualitário entre diferentes tradições clássicas mundiais, enfrentando os desafios impostos pela inteligência artificial e pela sociedade de plataformas. Fan Yongpeng, vice-decano do Instituto da China, ressaltou em sua intervenção que a inteligência artificial reorganiza as formas organizacionais e de propriedade, exigindo que os estudos sobre o Estado analisem o impacto das novas tecnologias na estrutura das instituições públicas.
Ao migrar de debates normativos para a construção empírica de um sistema de conhecimento autônomo, o fórum propôs novas métricas de legitimidade e governança global, oferecendo aos países emergentes uma matriz analítica independente das formulações do Norte Global.
A Unidade 3 concentrou-se na reconstrução do conhecimento no Sul Global e na superação da dependência acadêmica em relação às metrópoles do Norte. O ex-embaixador chinês Li Jiming apresentou o “Modelo de Daca”, fruto de sua experiência em Bangladesh, defendendo a pesquisa conjunta e a presença de pesquisadores residentes em universidades locais para aprimorar o entendimento mútuo. Acadêmicos como Xu Zhun (Universidade Sun Yat-sen) e Yin Zhiguang (Fudan) enfatizaram que a economia do desenvolvimento e os projetos de infraestrutura internacional devem se fundamentar no envolvimento direto com as comunidades locais, gerando emprego, capacitação técnica e transformação concreta nos padrões de vida.
Na Unidade 4, dedicada à competição industrial entre China e Estados Unidos, analistas abordaram a cultura industrial, os ecistemas de inteligência artificial e o papel do financiamento produtivo. A partir de estudos apresentados pelos professores Jia Kai, Li Yin e pelo pesquisador Guo Jiezhen, o fórum comparou a orientação de curto prazo voltada ao mercado acionário nos Estados Unidos com o modelo chinês de investimentos industriais de longo prazo e financiamento para o desenvolvimento. As análises destacaram que a sustentabilidade da inovação tecnológica depende do acúmulo de conhecimento de engenharia em oficinas e fábricas, além do suporte contínuo da infraestrutura pública.
O encontro encerrou suas atividades com uma mesa-redonda dedicada à divulgação científica e à comunicação internacional, que reuniu docentes, jornalistas e produtores de conteúdo digital. Participantes como Pan Nini, Pan Xiaoli e criadores conhecidos na opinião pública chinesa debateram as estratégias para comunicar análises complexas ao grande público de forma clara e rigorosa, combatendo a desinformação externa. Ao unir pesquisa acadêmica de ponta, formulação estratégica e comunicação de massa, o Fórum de Pensadores de 2026 reafirmou o compromisso de Pequim em consolidar um sistema de conhecimento independente, fortalecendo a voz do Sul Global na construção de uma ordem mundial genuinamente multipolar.