A história da República Popular da China é marcada por profundas transformações e momentos de virada que redefiniram não apenas o destino de seu povo, mas também o equilíbrio geopolítico e econômico global. No vasto panorama que compreende o processo de reconstrução e revitalização da nação chinesa, poucos eventos possuem a magnitude histórica e o impacto estrutural da Terceira Sessão Plenária do Décimo Primeiro Comitê Central do Partido Comunista da China. Para compreender a importância desse divisor de águas, ocorrido no final dos anos setenta, é indispensável resgatar o cenário de profunda incerteza que o antecedeu. Em outubro de 1976, a queda do chamado Bando dos Quatro representou um momento de alívio e salvação para o Partido e para o Estado, sinalizando o esgotamento de um ciclo de extremos. Contudo, a derrocada desse grupo não significou a resolução imediata dos problemas complexos que afligiam o país. O saldo de dez anos de turbulência provocados pela Revolução Cultural era visível e dramático, manifestando-se em um estado de caos generalizado que paralisava as áreas política, ideológica, de organização e, de forma extremamente preocupante, a economia nacional. Havia, por parte dos ativistas e das massas populares, uma exigência urgente e legítima por ações concretas que pudessem corrigir os erros daquele período e remediar as graves fraturas sociais e institucionais herdadas da década anterior. A atmosfera na China era de grande expectativa, mas o caminho para o progresso encontrava-se interrompido por sérios obstáculos políticos e ideológicos que precisavam ser superados antes que qualquer mudança real pudesse florescer.
O impasse começou a ser rompido a partir de um movimento intelectual e filosófico que questionou as bases do dogmatismo vigente. Em maio de 1978, iniciou-se um grande debate nacional sobre os critérios para se testar a verdade, uma discussão que parecia teórica, mas que carregava um teor profundamente revolucionário para a época. Esse debate deflagrou um vigoroso movimento de libertação de ideias sobre o marxismo, desafiando visões engessadas e abrindo espaço para uma racionalidade prática voltada para os resultados reais. Foi justamente essa efervescência ideológica que serviu como fundação e alicerce para os trabalhos que se seguiriam no final daquele ano. O ambiente de renovação mental preparou o terreno para a histórica reunião do 11° Comitê Central do Partido Comunista da China, que se reuniu em Beijing entre os dias dezoito e vinte e dois de dezembro de 1978. A brevidade desses cinco dias de sessão plenária oficial, no entanto, não reflete a totalidade do esforço político despendido pelos líderes chineses. Antes que a sessão começasse, o Comitê Central realizou uma conferência de trabalho preparatória que se estendeu por trinta e seis dias, demonstrando o cuidado, a seriedade e a busca por consenso que norteavam aquele momento de transição. Na reunião de encerramento desse longo período preparatório, Deng Xiaoping proferiu um pronunciamento marcante, cujo título sintetizava o espírito da nova era: emancipar a mente, buscar a verdade dos fatos e unir-se como um só olhando para o futuro. Esse discurso passou a ser considerado, com justiça, o principal roteiro e a alma daquela sessão plenária.
Sob a liderança firme de Deng Xiaoping e contando com o apoio decisivo de outros revolucionários veteranos que compreendiam a necessidade imperiosa de mudança, a Terceira Sessão Plenária promoveu um exame minucioso e corajoso do passado recente. O encontro corrigiu os desvios esquerdistas que haviam caracterizado a Revolução Cultural e criticou abertamente a política restritiva dos dois todos, uma postura que pretendia manter uma fidelidade cega e literal a decisões anteriores, impedindo a adaptação às novas realidades. Em vez do dogmatismo, a sessão enfatizou que o pensamento de Mao Zedong deveria ser considerado e aplicado de forma ampla e fidedigna, resgatando sua essência analítica em detrimento de interpretações literais e isoladas. O grande debate sobre os critérios para testar a verdade recebeu uma alta valorização dos delegados, consolidando a máxima de que a prática é o único critério da verdade. A partir disso, foi oficialmente definida a diretriz que moldaria as décadas seguintes da governança chinesa, focada na emancipação da mente e na busca da verdade a partir dos fatos concretos, deixando para trás os rancores e as divisões do passado para construir uma unidade nacional voltada para o amanhã. Essa transformação ideológica permitiu o distanciamento definitivo da antiga ênfase excessiva na luta de classes, que tanto havia desgastado o tecido social e a capacidade produtiva do país nas décadas anteriores.
A grande e mais significativa decisão tomada pela Terceira Sessão Plenária foi o redirecionamento dos esforços do Partido e do Estado em favor de uma maior atenção à modernização socialista, formalizando o início histórico da política de reforma e abertura. Essa guinada estratégica exigia também uma renovação nas estruturas de poder do próprio Partido. Para sustentar e executar as novas diretrizes, a sessão plenária elegeu membros adicionais para o Comitê Central, para o Bureau Político do Comitê Central e para o Comitê Permanente do Bureau Político. Esse rearranjo institucional resultou na formação da segunda geração de liderança coletiva central do Partido Comunista da China, uma equipe de estadistas que trazia consigo a experiência da revolução e o pragmatismo necessário para os novos tempos, tendo Deng Xiaoping consolidado como sua figura central e principal arquiteto. Diante de tudo isso, a Terceira Sessão Plenária do 11° Comitê Central fixou seu lugar como uma das reuniões mais cruciais e determinantes em toda a história da China moderna. Ao estabelecer diretrizes ideológicas, políticas e organizacionais sólidas, o Partido conseguiu pôr um fim definitivo à instabilidade social e ao progresso hesitante que haviam marcado os dois anos subsequentes à queda do Bando dos Quatro. O evento representou uma imensa e profunda reviravolta histórica, acendendo os motores da modernização e inaugurando a marcha da reforma e abertura que transformaria a China em uma potência contemporânea, pavimentando de forma irreversível a trajetória de revitalização de sua dignidade nacional.
Referências Bibliográficas:
CHINA. Comitê Central do Partido Comunista da China. Comunicado Oficial da Terceira Sessão Plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China. Beijing: Agência de Notícias Xinhua, 23 de dezembro de 1978.
DENG, Xiaoping. Emancipar a mente, buscar a verdade dos fatos e unir-se como um só olhando para o futuro. In: Obras Escolhidas de Deng Xiaoping (1975-1982). Beijing: Editora de Línguas Estrangeiras, 1984. v. 2, p. 151-165.
INSTITUTO DE PESQUISA DE HISTÓRIA E LITERATURA DO PARTIDO (PCCh). A História do Partido Comunista da China: Período de Reforma e Abertura. Beijing: Editora da História do Partido, 2021.
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VOGEL, Ezra F. Deng Xiaoping e a Transformação da China. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

