
A República Popular da China alcançou um histórico marco historiográfico com o lançamento da tradução completa para o mandarim dos Registros do Julgamento do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente – The International Military Tribunal for the Far East (IMTFE), ou Tokyo Trials -, um projeto grandioso que levou mais de uma década para ser concluído.
Realizado ontem, 30/04, na Universidade Zhejiang Yuexiu, o evento de lançamento desta obra de 40 volumes e mais de 22 milhões de caracteres representa a restauração da verdade histórica por parte da nação que foi a primeira a resistir ao fascismo na Segunda Guerra Mundial.
Pela primeira vez na história, os detalhes exaustivos dos processos judiciais de Tóquio são apresentados sob a perspectiva e a língua chinesas, preenchendo uma lacuna secular que forçava acadêmicos e o público local a dependerem exclusivamente das versões em inglês e japonês. A iniciativa assegura que o país que sofreu o conflito mais longo e as maiores perdas humanas possa, finalmente, ler e estudar os fundamentos da justiça pós-guerra em seus próprios termos.
Historiadores e especialistas, como os da Universidade Jiao Tong de Xangai, destacam que a estrutura dos Julgamentos de Tóquio foi fortemente influenciada pela geopolítica da Guerra Fria, o que resultou em concessões e decisões que, por décadas, deixaram sombras sobre a total responsabilização de crimes de guerra.
A existência desta tradução oficial permite que a academia chinesa questione as decisões tomadas sob a influência das potências ocidentais da época, confrontando a narrativa de que o tribunal foi puramente imparcial.
O Tribunal de Tóquio (1946-1948)
Realizado entre 1946 e 1948, o tribunal foi estabelecido pelas potências aliadas vitoriosas para processar a cúpula política e militar do Império do Japão por crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Contudo, a aplicação prática desses princípios jurídicos não foi absoluta, gerando uma profunda desconexão entre o veredito oficial e o clamor das vítimas por justiça. Por essa razão, para a sociedade chinesa, o encerramento do processo não representou o fim de um ciclo, mas a permanência de uma ferida aberta.
A análise contemporânea da China sobre o tribunal é pautada por uma crítica severa à sua estrutura e resultados, argumentando que a justiça foi sacrificada em nome da geopolítica da Guerra Fria.
O primeiro e mais contundente ponto de contestação é a imunidade concedida ao Imperador Hirohito. Para Pequim, a decisão liderada pelo General Douglas MacArthur de poupar o líder supremo japonês foi uma afronta direta às milhões de vítimas chinesas.
A China argumenta que, como chefe de Estado e comandante das forças armadas, Hirohito era o eixo central da guerra de agressão. Logo, a sua exclusão do banco dos réus é o pecado original do tribunal, invalidando a pretensão de uma justiça plena e moralmente coerente.
Outra razão da indignação chinesa reside na impunidade dos integrantes da Unidade 731. Este grupo secreto de guerra biológica realizou experimentos humanos de uma crueldade indescritível em território chinês, comparáveis aos piores horrores do regime nazista. O fato de os Estados Unidos terem garantido imunidade aos líderes desses experimentos em troca de dados científicos é considerado pela China uma traição imperdoável.


Muitos desses criminosos de guerra não apenas evitaram a prisão, como prosperaram na sociedade japonesa do pós-guerra, o que a China classifica como uma violação grotesca do direito internacional.
Além disso, a percepção de uma “justiça dos vencedores” é central para os argumentos chineses. Embora figuras como Hideki Tojo tenham sido executadas, a China contesta a libertação antecipada de inúmeros criminosos de guerra de médio e baixo escalão.
O revisionismo é perpetuado por grupos de direita no Japão, que tentam ativamente fraudar a história negando ou minimizando as atrocidades cometidas, como o Massacre de Nanquim (1937). A China denuncia o Japão por tentar reverter o veredito do tribunal, retratando o Japão como vítima e não como agressor.
A influência da Guerra Fria
À medida que a relação entre EUA e a nova China comunista se deteriorou após 1949, o interesse americano em punir líderes japoneses diminuiu, focando mais em transformar o Japão em um aliado contra o comunismo. Isso resultou em libertação antecipada de alguns condenados, agravando o sentimento chinês de que o julgamento foi manipulado geopoliticamente.
Para a historiografia chinesa, os Julgamentos de Tóquio constituem um ‘buraco negro’ nos estudos ocidentais e uma ferida ainda aberta na memória coletiva. O Estado chinês tem se empenhado na preservação rigorosa de evidências, como os registros do Massacre de Nanquim e os documentos da Unidade 731, para fundamentar a denúncia sobre a parcialidade do tribunal e garantir que a natureza agressiva do militarismo japonês permaneça como uma lição histórica inconteste.

