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Por que a China lê o dobro do Brasil e o que podemos aprender com isso?

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Uma criança lê um livro em uma livraria na cidade de Shijiazhuang, Província de Hebei, no norte da China, em 12 de abril de 2026. (Xinhua/Liang Zidong)

MACEIÓ – A recente divulgação dos indicadores de leitura na China, apresentados durante a 5ª Conferência Nacional sobre Leitura em Nanchang, acende um sinal de alerta e serve como um espelho para a realidade educacional e cultural brasileira. Enquanto o gigante asiático colhe os frutos de um esforço nacional coordenado para construir uma sociedade apaixonada pelos livros, o Brasil ainda patina em índices que demonstram uma estagnação no acesso e no interesse literário. Os dados chineses de 2025 são impressionantes e revelam que a taxa geral de leitura entre adultos atingiu a marca de 82,3%, um número que coloca o país na vanguarda global. No Brasil, em contrapartida, os levantamentos mais recentes, como a pesquisa Retratos da Leitura, mostram que apenas cerca de metade da população é considerada leitora, evidenciando um abismo social e educacional que separa as duas nações. A média de livros lidos por habitante na China saltou para 8,39 obras anuais, englobando tanto o papel quanto o digital, enquanto o brasileiro médio lê pouco mais de 4 livros por ano, sendo que apenas metade destes são lidos do início ao fim.

O motor dessa transformação chinesa é a leitura digital, que se tornou o pilar de uma nova indústria cultural. Com 80,8% dos adultos chineses consumindo literatura online, e-books e audiolivros, a tecnologia deixou de ser uma distração para se tornar a principal ferramenta de democratização do conhecimento. O mercado digital chinês dobrou de tamanho em apenas cinco anos, alcançando faturamentos bilionários e oferecendo um catálogo que ultrapassa 70 milhões de obras. No Brasil, o crescimento do mercado digital ainda enfrenta barreiras severas, desde o preço dos dispositivos de leitura até a falta de conectividade em regiões periféricas. Enquanto o trabalhador chinês utiliza o tempo de deslocamento para ouvir livros ou ler ficção seriada em dispositivos móveis, o brasileiro ainda vê a leitura digital como um nicho acadêmico ou um luxo para classes mais abastadas. Essa diferença de comportamento reflete-se na base de usuários: a China já conta com quase 700 milhões de leitores digitais ativos, uma escala sem precedentes que impulsiona a inovação e a criatividade em toda a sua cadeia produtiva.

Pessoas leem livros numa biblioteca pública em Shanghai, no leste da China, em 9 de novembro de 2025. (Foto: Cai Xiangxin/Xinhua)

O motor do crescimento chinês é, sem dúvida, o ambiente digital. O país asiático já conta com 689 milhões de usuários de leitura digital, um mercado que dobrou de tamanho em cinco anos.

IndicadorChina (Dados 2025)Brasil (Estimativas Recentes)
Taxa de Leitura Digital80,8% dos adultos~15% a 35% (crescente, mas nichado)
Obras Digitais Disponíveis+70 milhões< 100 mil (títulos em português)
Mercado DigitalUS$ 8,6 bilhões (59,48 bi yuans)Em fase de maturação e nicho acadêmico

Enquanto na China o digital é a porta de entrada para a literatura e audiolivros no Brasil o acesso a e-books e dispositivos de leitura ainda enfrenta barreiras de preço e infraestrutura tecnológica.

Políticas públicas e incentivo

A divergência entre os dois países também é nítida no campo das políticas públicas e do apoio institucional. Na China, o hábito de leitura não é deixado ao acaso; ele é amparado por regulamentos federais que entraram em vigor em fevereiro de 2026, estabelecendo semanas nacionais de incentivo e a modernização constante de bibliotecas e serviços públicos. Há um entendimento estatal de que a leitura é o alicerce para o sucesso profissional e a formação moral dos cidadãos. Já no cenário brasileiro, o que se observa é uma descontinuidade de planos nacionais e uma carência de infraestrutura em bibliotecas municipais, que muitas vezes operam com acervos defasados e sem integração com as novas tecnologias. A falta de uma “Semana Nacional da Leitura” com o peso e a organização da que ocorre em Nanchang demonstra que, no Brasil, o incentivo ao livro ainda é visto como uma ação periférica, e não como uma estratégia central de desenvolvimento econômico e intelectual.

Apesar da explosão tecnológica, um ponto curioso une as duas realidades: a persistência e a resiliência do livro impresso. Na China, 45,9% dos leitores ainda declaram preferência pelas obras físicas quando o objetivo é uma leitura imersiva e aprofundada. No Brasil, o livro de papel também continua sendo o formato predileto, simbolizando um valor cultural que resiste ao tempo. Contudo, o desafio para o Brasil é transformar essa admiração pelo objeto livro em hábito efetivo. Enquanto especialistas chineses, como Wu Shulin, defendem a migração da “navegação fragmentada” da internet para a “leitura em profundidade”, o Brasil ainda luta para garantir que sua população consiga superar o analfabetismo funcional. A comparação entre os dados deixa claro que o crescimento chinês não é fruto do acaso, mas de uma simbiose entre tecnologia acessível e vontade política, um roteiro que o Brasil precisará seguir se quiser que suas histórias também rompam barreiras e se integrem ao cotidiano de sua gente.

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