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A Primeira Cooperação entre o Partido Comunista da China e o Kuomintang – (Série A História da Reconstrução da China)

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A história da reconstrução e da modernização da China contemporânea não pode ser compreendida sem um mergulho profundo nas primeiras décadas do século vinte, um período marcado por fragmentação política, dominação estrangeira e intensas disputas ideológicas que moldaram o destino da nação. No cerne desse turbilhão, destaca-se um capítulo fundamental de convergência estratégica e ambição revolucionária: a chamada Primeira Cooperação entre o Partido Comunista da China (PCCh) e o Kuomintang (KMT), o Partido Nacionalista Chinês. Esse arranjo histórico, que se estendeu de janeiro de 1924 a julho de 1927, representou a primeira grande tentativa de unificar o país sob uma bandeira de libertação nacional e superação do atraso socioeconômico.

Para o recém-fundado Partido Comunista, os primeiros anos de atuação direta junto ao movimento da classe trabalhadora trouxeram lições duras e realistas sobre a complexidade do cenário geopolítico e social chinês. As lideranças comunistas rapidamente perceberam que os oponentes da revolução — forças feudais internas representadas por senhores da guerra e poderosos interesses imperialistas estrangeiros — eram incrivelmente coordenados e destrutivos. Ficou evidente que a força isolada da classe trabalhadora urbana, embora combativa, não seria suficiente para derrubar estruturas opressoras tão enraizadas, sendo imperativo interligar todos os aliados possíveis para formar uma frente unida mais ampla e representativa.

Essa leitura pragmática da realidade levou a uma mudança tática decisiva durante o Terceiro Congresso Nacional do PCCh, realizado em junho de 1923, quando se deliberou que os membros comunistas deveriam ingressar individualmente nas fileiras do Kuomintang. Essa infiltração consentida e colaborativa visava oxigenar o movimento nacionalista e selar o acordo de cooperação entre as duas legendas. Por outro lado, o Kuomintang encontrava-se em uma situação de extrema vulnerabilidade política e militar, sofrendo daquilo que analistas da época chamavam de uma anemia severa. Desesperadamente necessitado de uma transfusão de sangue que lhe devolvesse a capacidade operacional e o apoio popular, o KMT, sob a liderança do respeitado Sun Yat-sen, tomou a decisão estratégica de adotar as ideias de organização russas e reestruturar o exército nacional com a ajuda direta do PCCh.

A formalização desse pacto histórico ocorreu em janeiro de 1924, durante o Primeiro Congresso Nacional do KMT, um evento que alterou permanentemente os rumos da política asiática. Na ocasião, mais de vinte comunistas participaram ativamente das deliberações, evidenciando o peso da nova aliança. Demonstrando espírito de liderança e conciliação, Sun Yat-sen nomeou o líder comunista Li Dazhao como membro do Presidium do congresso. A grande conquista política desse encontro foi a aprovação de uma resolução que forneceu uma nova interpretação aos célebres Três Princípios do Povo de Sun Yat-sen, que passaram a integrar aspirações mais alinhadas às demandas populares e serviram de base ideológica para a Primeira Frente Unida.

Além disso, o congresso determinou as três políticas fundamentais que guiariam o movimento: a aliança estratégica com a Rússia, a cooperação formal com o Partido Comunista da China e a assistência ativa aos camponeses e trabalhadores. O reflexo dessa integração se traduziu na eleição de dez membros do Partido Comunista, incluindo figuras que se tornariam centrais na história mundial, como Li Dazhao e Mao Zedong, para os cargos de membros e membros suplentes do Comitê Executivo Central do KMT. Essa participação correspondia a um quarto do total de membros eleitos, consolidando o início oficial da aliança e inaugurando um período de efervescência sem precedentes.

A partir desse marco, o movimento revolucionário nacional ganhou uma força avassaladora, tendo a cidade de Guangzhou como seu grande epicentro político e militar. A união de forças permitiu um crescimento vigoroso na luta contra as estruturas do imperialismo e do feudalismo que asfixiavam o desenvolvimento da China. Essa sinergia começou a reunir e organizar a energia necessária para a preparação da Expedição do Norte, uma grande campanha militar projetada para unificar o território chinês e erradicar o poder dos senhores da guerra.

Contudo, o equilíbrio de forças dentro da coalizão era frágil e despertava desconfianças profundas nas alas mais conservadoras do nacionalismo. O sonho de uma reconstrução conjunta e harmoniosa começou a desmoronar com a ascensão de novas lideranças militares no KMT que rejeitavam a influência esquerdista. A traição perpetrada por Chiang Kai-shek em abril de 1927, seguida pelas ações de Wang Jingwei em julho do mesmo ano, desfechou golpes fatais contra os membros do PCCh e os movimentos sindicais e camponeses. Esse violento ponto de virada causou o colapso completo da ambiciosa Primeira Cooperação KMT-PCCh, mergulhando o país em anos de guerra civil e adiando a estabilização nacional, mas deixando lições organizacionais e de mobilização de massas que redefiniriam para sempre a estratégia de reconstrução da China.

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